Conheça, de verdade, o grande campeão Max Verstappen. Exemplo: “Odeio a escola”

Olá, amigos.

Nós vamos conversar bastante, nos próximos dias, sobre os incríveis acontecimentos no Circuito Yas Marina, neste domingo, e que resultaram na conquista do merecido título de Max Verstappen, da Red Bull-Honda, quando parecia, a apenas cinco voltas da bandeirada do GP de Abu Dhabi, que Lewis Hamilton, da Mercedes, faria a festa pela oitava vez na F1.

Vou me limitar, hoje, a oferecer um panorama um tanto distinto sobre quem é o talentosíssimo, combativo e controverso personagem do dia, ou melhor, da temporada, o campeão mundial Max Emilian Verstappen, de 24 anos, completados dia 30 de setembro.

Tudo o que você irá ler, a seguir, escutei nas muitas entrevistas exclusivas que fiz com Max e os profissionais que trabalham para ele desenvolver seus imensos dotes de piloto e ser o que é, um fenômeno das pistas: o mais jovem a estrear na F1, com 17 anos e 166 dias; o mais jovem a marcar pontos, 17 anos e 180 dias; o mais jovem a chegar no pódio, 18 anos e 228 dias, e o mais jovem a vencer um GP, 18 anos e 228 dias.

Veja como ficou a classificação final da F1 em 2021

Com 24 anos e 73 dias, Max não é o campeão mundial mais jovem da história, feito realizado por Sebastian Vettel, em 2010, de Red Bull-Renault, com 23 anos e 134 dias.

Vamos conhecer mais a fundo esse recordista de precocidades na F1, dentre outros tantos atributos?

Em 2014, Max pilotou pela primeira vez um carro de F1 em um fim de semana de GP. Foi em Suzuka, no Japão, com o modelo STR9 da Toro Rosso-Renault, no primeiro treino livre, na sexta-feira. Antes disso, havia completado algumas voltas com um modelo antigo da equipe italiana, em Misano, mas sob chuva.

Veja a ultrapassagem de Verstappen sobre Hamilton que valeu o título:

Três dias antes da experiência em Suzuka, comemorou 17 anos de idade. Ele disputava, ainda, o título do conceituado Campeonato Europeu de F3 com o francês Esteban Ocon, hoje no time da Alpine de F1. Faltavam duas etapas, seis corridas. Ocon ficaria com o título e Max, em terceiro.

Vai lá e trate de acelerar

Eu conversei com Max, depois da sua primeira experiência com um carro de F1. Veja o que me disse, é surpreendente:

“Eu e meu pai perguntamos ao Doctor Marko (Helmut Marko, ex-piloto de F1 e Endurance, consultor com poderes de diretor da Red Bull) e ao senhor Tost (Franz Tost, diretor geral da então Toro Rosso, hoje Alpha Tauri) se aquela pista representava mesmo o melhor lugar para eu conhecer o carro. É famosa por ser difícil, rápida e não ter áreas de escape. Nós ouvimos deles que se eu fosse bom deveria ir lá e corresponder”.

A resposta prosseguiu: “Quando já estávamos em Suzuka, antes de entrar na pista, sentado no cockpit, o senhor Tost se aproximou de mim, abri a viseira e ele me disse que até o fim daquela sessão de uma hora e meia eu deveria já estar fazendo a curva 130R de pé embaixo, sem aliviar. Ele ainda deu dois tapinhas no meu capacete, desejando-me boa sorte”.

A curva 130R é aquela à esquerda, no fim da longa reta que se estende depois da veloz Curva Spoon, contornada em oitava marcha, a cerca de 320 km/h.

Max me disse mais: “Imagine que eu nunca havia ultrapassado os 230 km/h, velocidade máxima do meu carro de F3. Quando dei algumas voltas com um carro antigo de F1, na Itália (Misano), chovia. O que primeiro precisei fazer foi me habituar com a velocidade dos carros de F1, completa novidade para mim. Lembro de na primeira volta acelerar na reta dos boxes, em descida, e no meio dela tirar o pé do acelerador, impressionado com a aceleração. Aos poucos fui me habituando, ganhando confiança. Não queria de forma alguma bater, por saber que em Suzuka você bate sempre forte”.

Obviamente eu lhe perguntei se havia conseguido percorrer a Curva 130R flat out, em aceleração máxima. “Sim, mais cedo do que pensava. Você vai descobrindo a enorme aderência gerada pela aerodinâmica e pelos pneus, passa a conhecer os limites do carro. Foi uma descoberta para mim.”

No fim do treino, Max completou 22 voltas na seletiva pista japonesa de 5.807 metros e registrou um tempo 443 milésimos pior que o outro piloto da Toro Rosso-Renault, o russo Daniil Kvyat.

Detalhes de sua contratação

O treino foi programado por Doctor Marko e Tost porque Max já havia assinado para disputar o campeonato de 2015 pela equipe italiana, apesar de, como escrevi, ter acabado de celebrar seu 17º aniversário.

Max me contou como foi sua contratação pelo Doctor Marko: “Eu venci as três corridas de F3 da etapa de Spa (Bélgica) e as três da etapa seguinte, em Norisring (Nuremberg, Alemanha). Nós voltamos para casa (Bree, na Bélgica), de carro, umas 5, 6 horas, e fomos dormir. Estava exausto.”

Mais dessa história. “No dia seguinte, 30 de junho (2014), meu pai me acordou cedo. Não entendi, no primeiro momento, a razão. Ele me disse que Doctor Marko tinha acabado de ligar a fim de me oferecer uma vaga de piloto titular na Toro Rosso no ano seguinte. Como havia dormido pouco, fiquei com a sensação de que aquilo não era real, mas um sonho. Até que de fato me dei conta de que havia surgido uma chance de pilotar na F1. Claro, eu e meu pai nos emocionamos. Não esperava que fosse acontecer já no meu segundo ano como piloto. No ano anterior (2013), eu era ainda piloto de kart.”

O pequeno Max – Reprodução/Instagram Max Verstappen

Essa inexperiência toda gerou resistência na F1 para aceitá-lo como piloto. Afinal Max não podia dirigir automóveis na rua, por ter 17 anos recém-completados, mas estava autorizado pela FIA a pilotar os ultravelozes monopostos de F1.

Isso obrigou a FIA a estabelecer, um tempo depois, a idade mínima de 18 anos para estrear na F1, bem como criou um sistema de pontuação na carteira para o piloto obter a superlicença, documento necessário para pilotar na F1. Só pilotos que fazem sucesso nas fórmulas 4, 3 e 2, principalmente, podem somar os pontos necessários para acessar a F1. Em resumo, sejam experientes e capazes.

Os primeiros GPs comprovaram que Max era mesmo alguém muito especial, mas assumia riscos elevados, naturais para um adolescente.

Visto no meio como arrogante

Veja só o que me disse quando lhe perguntei o maior ensinamento do grave acidente sofrido no GP de Mônaco, de 2015, na sua sexta corrida de F1. Errou a freada no fim da reta dos boxes, acertou o francês Romain Grosjean, da Lotus, e colidiu frontalmente na barreira de proteção da Curva Saint Devote. Precisou da ajuda dos comissários para deixar o cockpit:

“A maior lição foi descobrir que o carro de F1 é mais resistente do que eu pensava. Isso quer dizer que posso, agora, correr mais riscos do que vinha fazendo.”

Sua declaração ganhou a mídia internacional, elevando a impressão de arrogância do jovem piloto holandês. Já Bernie Ecclestone, ainda na liderança da F1, em 2015, amou aquilo tudo: “Max é a melhor coisa que aconteceu na F1 nos últimos anos”.

A pergunta se tornou inevitável: com um ano, somente, de automobilismo, na F3, você acredita que chegou preparado para os muitos e complexos desafios da F1?

“Depende muito de como você é preparado nas suas primeiras fases de formação, desde o kart. Eu tinha o meu pai me ajudando o tempo todo. Ele sabia o que eu tinha de fazer para me tornar um piloto de F1. Essa é a razão de, para a minha idade, estar em um nível de preparo avançado. Não são todos os pilotos que podem ser treinados dessa forma. Depende muito das pessoas que você tem ao seu redor. (Jos, pai de Max, disputou 107 GPs de 1994 a 2003 e pilotou para Benetton, Simtek, Arrows, Tyrrell, Stewart e Minardi. Os seus melhores resultados foram dois pódios, terceiro na Hungria e Bélgica, em 1994, como companheiro de Michael Schumacher na Benetton.)

Max e Jos Verstappen – Reprodução/Instagram Jos Verstappen

Não está nem aí para as mídias sociais

Outras perguntas que fiz a Max, agora em 2016, quando já havia passado da Toro Rosso para a Red Bull-Renault e ter vencido brilhantemente na estreia, o GP da Espanha.

Rapazes da sua idade gostam de mídias sociais, reunirem-se, promover festas, ir a shows musicais. Sua profissão, piloto de F1, não permite ter essa vida. Como você administra a questão?

“Para mim, desde muito pequeno, meu sonho sempre foi me tornar piloto de F1. Claro, você sente, em alguns momentos, desejo de estar com os amigos, mas para mim não há nada que eu mais goste do que viver nesse nosso mundo das corridas. Isso tudo que você falou nunca foi algo que eu gostasse tanto, mesmo quando era ainda mais jovem. Para mim o prazer maior é trabalhar para ser um piloto cada vez melhor. Minha vida foi voltada para isso, meus fãs, meus amigos estão nesse universo das corridas e não são tão ligados em mídias sociais e festas, portanto para mim é fácil ignorar certas coisas que os outros da minha idade fazem.

Aqui no paddock é comum as pessoas destacarem a sua maturidade, com 17 anos você já corria em alto nível na F1 e com 18 ganhou seu primeiro GP, com um carro que nunca havia ainda pilotado, o da Red Bull.

“Eu estou quase o tempo todo, e não é de hoje, no meio praticamente só de adultos, você acaba absorvendo sua maneira de pensar, agir. Além disso, a F1 faz você amadurecer muito rápido, e você tem de amadurecer caso contrário não se estabelece aqui. Ninguém passa a mão na sua cabeça para perguntar o que você tem, meu filho? Desde o kart já vivia num mundo profissional, cresci nesses valores. Viajamos toda hora, às vezes para longe, o que também ajuda a apressar seu entendimento da vida, você fica muito tempo sozinho, reflete.

Velocidade no DNA

Você viveu no começo da carreira, no kart, com seu pai e está sempre também com sua mãe, Sophie, belga, vencedora no kart. Ela venceu pilotos como Jenson Button, Giancarlo Fisichella e Jarno Trulli. Qual a influência deles na sua vida, com esse histórico de velocidade?

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“Meus pais (separados) residem na Bélgica e eu moro sozinho em Mônaco. Eu sempre fui uma pessoa que se virou muito bem sozinha, gosto disso, tomar minhas decisões, posso sempre encontrar as soluções para meus desafios. Isso é muito importante. A maioria prefere ter alguém perto, o que não ajuda muito nesse processo de maturidade. Quanto a herdar a velocidade deles, não sei te dizer. Acredito que podem me ter influenciado quanto a me interessar pelo automobilismo, mas provavelmente só isso.”

Max vive desde janeiro com Kelly Piquet, filha de Nelson Piquet, em Mônaco. Ela foi casada com o piloto russo Daniil Kvyat, hoje piloto reserva da Alpine. Teve uma filha, Penelope, hoje com dois anos.

Max a respeito de se deslocar no Principado de Mônaco, com seus dois quilômetros quadrados de área. “Eu não dirijo em Mônaco, tenho carro, mas prefiro uma scooter, com o capacete passo mais discreto entre a população. Não gosto de passar de carro e as pessoas ficarem te olhando, gosto mais de andar de scooter.”

De fato, morei em Nice por 12 anos, do lado de Mônaco, até a temporada passada, e nunca identifiquei Max por lá, ao contrário de Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Felipe Massa, dentre outros.

Nunca quis saber de estudar

Essa faceta de Max irá te surpreender. Eu fiz uma longa entrevista com ele no México, em 2017. Era uma conversa do tipo one to one por ano e questões postas depois de coletivas, por exemplo, temas às vezes delicados. Sempre foi muito atencioso comigo. Veja só: Max, até que idade você se manteve na escola?

“Na escola normal eu estudei até os 15 anos. Tinha enorme dificuldade de conciliar os estudos com a minha atividade no kart, tentei seguir estudando numa escola privada, fazendo provas via computador, mas não havia como, competir de kart exige muito. Você começa a trabalhar às 7h30 da manhã, o primeiro treino inicia às 8h20, há várias sessões até 17h30. Depois você tem de limpar o motor e eu sempre ajudava meu mecânico, cuidava dos pneus, do combustível… terminava sempre bem tarde, 23 horas. Estava exausto, precisava descansar, não sobrava tempo para estudar. Eu chamei meu pai e disse que precisávamos tomar uma decisão.

Pergunto: Qual foi? “(Risos) Eu falei a meu pai ou eu paro tudo e vou para a escola ou eu passo a me concentrar totalmente no kart, no meu objetivo de chegar na F1 e deixo a escola. Nos decidimos pela segunda opção. Felizmente deu certo. Mas foi uma decisão de alto risco. Se não tivesse obtido sucesso, eu teria perdido tempo e não teria diploma, não teria nada, minha vida seria mais difícil. Mas sempre tive comigo que se não desse certo de chegar na F1 eu faria qualquer outra coisa ligada ao automobilismo”.

Veja a volta que valeu a pole para Verstappen em Abu Dhabi:

Você não cogitava, sequer, regressar à escola, completar o ensino fundamental?

“Não, eu odeio a escola. Procuraria fazer algo relacionado às corridas.”

Não há nenhuma área do seu interesse que justificaria você cursar a universidade?

“Não, de forma alguma. Eu não gosto. Quando estava na escola eu queria estar fora, em contato com o mundo. Eu optei por não seguir estudando e continuar viajando pelo mundo, agora mais, e isso tem me dado grande experiência, mais do que se tivesse escolhido ficar na escola. É verdade que eu não sei escrever a melhor carta do mundo, mas aprendi muita coisa viajando.”

Exemplo para os jovens

Max, você vai lá e luta, não desiste, busca a vitória a qualquer preço. A torcida jovem, em especial, se identifica com você, há uma grande responsabilidade nisso. Reage bem ao fato de ser o modelo de uma geração de fãs?

“Não havia pensado nisso, talvez eu tenha de caminhar mais dentre eles para conhecê-los melhor. No kart e na F3 eu sempre era o mais jovem a competir, procurava me impor porque no começo eles não te respeitavam muito, o que esse menino está querendo aqui?, pensavam. Essa minha agressividade vem também de eu ter de deixar a minha marca, você não está lá para apenas aprender, mas para vencê-los e foi o que sempre fiz, no kart, na F3 e faço agora na F1. Às vezes há quem não goste e procura te atingir, mas eu sou um lutador e procuro sempre me superar.

Nesses anos de relação profissional com Max, eu lhe perguntei quando já tinha algumas vitórias na F1, em 2018:

Que tipo de pessoa você é?

“Muito calmo. Fora dos autódromos eu não mostro muito minhas emoções, estou sempre na minha, gosto de aproveitar a vida a minha maneira. Nos circuitos, eu sou um lutador, dou tudo para conseguir o melhor resultado possível. Eu mudo a chave, do modo calmo para o agressivo.”

Já é muito, muito rico

Você é bem jovem e já ganha muito dinheiro. Quem administra, seu pai te ajuda?

“Meu pai me ajuda. O meu empresário também (Raymond Vermeulen). Ele é, na realidade, um amigo da família, temos ótima relação, cuida dos contratos. E é muito dinheiro. Um jovem pode se desequilibrar, esse dinheiro é capaz de te tirar do caminho. Meu pai e meu empresário me orientam na gestão do que ganho.”

No paddock a informação, provavelmente procedente, é de a extensão do contrato de Max com a Red Bull-Honda, assinada em janeiro de 2020, até o fim de 2023, lhe garantir 28 milhões de euros, ou R$ 170 milhões, por temporada, mais prêmios por conquistas.

https://www.instagram.com/p/CSy7YcUsp0y/

Você é um gastão ou pensa duas vezes antes de comprar algo ou fazer um investimento?

“Eu não gasto dinheiro desnecessariamente, compro apenas o que preciso. E não é só para mim. O gostoso de ganhar esse dinheiro é poder dividir com a família, dar a todos uma boa qualidade de vida, eles se sacrificaram muito por minha causa quando eu comecei a competir e agora merecem desfrutar do sucesso que estou fazendo na F1.”

Ao longo da semana teremos muito o que falar sobre o GP de Abu Dhabi, concorda? Só adianto que no meu entendimento, apesar da chiadeira do pessoal da Mercedes, não vi nada de irregular nas decisões do diretor de prova, Michael Masi, em especial na autorização para os cinco pilotos retardatários que estavam entre Hamilton e Max, atrás do safety car, ultrapassarem o líder, o piloto inglês, a fim de entrar na mesma volta. Vimos isso acontecer em várias outras ocasiões. O título é, para mim, legítimo. Parabéns, Max!

Minha aposta: Red Bull-Honda escondeu o jogo até o Q1. Mas as chances de título de Max e Hamilton são iguais

Olá, amigos.

São raras as ocasiões em que não vejo os resultados na F1 como o fruto do desenvolvimento natural da competição. Jogos de cena, tentativas de iludir o adversário são recursos utilizados bem poucas vezes pelas equipes. Mas não são poucos os que veem teoria conspiratória em quase tudo. Definitivamente não faço parte desse grupo.

Mas confesso que no caso do GP de Abu Dhabi, neste fim de semana, não hesito em afirmar que os líderes da Red Bull-Honda, Adrian Newey, diretor da área técnica, e Christian Horner, diretor geral, dentre outros, claro, planejaram passar uma ideia, inicialmente, de o carro de seu piloto, Max Verstappen, não ter performance para acompanhar o de Lewis Hamilton, da Mercedes.

E quando foi a hora da verdade, a definição do grid, Max demonstrou o que o modelo RB16B-Honda, equipado com os pneus mais macios da Pirelli, o C5, pode fazer no novo traçado de 5.281 metros, 16 curvas. A ponto de Hamilton, depois da classificação, dizer: “Não era possível competir hoje com o tempo deles”. Max vai largar na pole position e Hamilton, em segundo.

Veja a classificação da F1

É provável que o concorrente de Max ao título não esperasse desempenho tão extremo da escuderia austríaca. No treino livre da manhã, neste sábado, Hamilton foi 214 milésimos melhor que Max, ambos com pneus macios. E no Q1, a primeira parte da definição do grid, com os dois de macios também, o piloto da Mercedes obteve um tempo 477 milésimos melhor que o de Max.

Poucos acreditaram que a pole não ficaria com Hamilton. Onde Max e a Red Bull-Honda iriam buscar o meio segundo que o adversário lhes impôs?

Só que poucos minutos mais tarde, com o primeiro jogo de pneus macios do Q3, Max estabeleceu 1min22s109, o melhor tempo do fim de semana e recorde da nova pista. Hamilton, 1min22s660. Ou seja, o holandês não apenas recuperou o meio segundo de vantagem de Hamilton como lhe aplicou um tempo meio segundo, 551 milésimos, melhor. Em outras palavras, avançou um segundo!

Resultado conclusivo

O regulamento não permite mudanças importantes no ajuste do carro durante a sessão de classificação, bem como não há tempo para nada. Isso quer dizer o quê, por favor? Que o real potencial do modelo RB16B-Honda de Max estava lá, guardado, quieto. E no momento oportuno o demonstrou a Hamilton e ao diretor da Mercedes, Toto Wolff.

Como? Há várias maneiras. A primeira é limitar a potência da unidade motriz, facilmente de se obter com um simples toque em um botão no volante. Outra é liberar os pilotos com mais gasolina da necessária para a volta de aquecimento dos pneus, a lançada e a de reentrada nos boxes. Nessa pista, 10 quilos a mais de gasolina implicam a perda de algo como quatro décimos de segundo no tempo de volta.

Com o segundo jogo de macios no Q3, Hamilton recorreu ao seu arsenal inesgotável de recursos de piloto para diminuir a diferença para Max de 551 milésimos para 371 milésimos.

Em resumo, Max sabe dispor de um conjunto chassi-unidade motriz bastante eficiente para as 58 voltas da corrida, neste domingo. Já na sexta-feira, nos dois treinos livres, enquanto Hamilton obtinha melhores tempos em uma volta lançada, Max registrava séries de voltas com performance melhor que a de Hamilton. Era a simulação de corrida.

Não há favoritos

Esse cenário não faz de Max o favorito para vencer o GP de Abu Dhabi, 22ª e último do calendário, e celebrar a conquista do seu primeiro título mundial. Você sabe, ele e Hamilton estão empatados com 369,5 pontos, mas o piloto da Mercedes obteve uma vitória a menos no ano, 8 a 9. Portanto, o líder do campeonato é Max. Se os dois não marcarem pontos no Circuito Yas Marina, o mundial fica com o holandês.

Há uma importante e decisiva variável em jogo neste domingo, até porque Max e Hamilton ainda não compartilharam a primeira fila do grid usando pneus diferentes. No GP de Abu Dhabi, Max começa com os macios enquanto Hamilton, médios.

O fato foi lembrado por Hamilton depois de afirmar não ter como acompanhar o ritmo de Max na classificação: “Eu ainda estou na primeira fila e confio que a nossa estratégia seja a mais indicada”.

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Com pneus macios, Max tende a tracionar melhor o carro e manter-se em primeiro depois da largada. E seu companheiro de Red Bull-Honda, Sérgio Perez, quarto no grid, tem a chance, ainda, de tentar ganhar o segundo lugar de Hamilton, pois também usou os pneus macios no Q2, neste sábado. Se isso acontecer, pode ajudar Max, que deverá fazer seu pit stop antes de Hamilton.

Valtteri Bottas, companheiro de Hamilton, não foi além do sexto lugar na definição do grid. Também larga com médios. Na sua frente estão Lando Norris, McLaren-Mercedes, terceiro, Perez, quarto, e Carlos Sainz Junior, Ferrari, quinto, os três com pneus macios.

Segundo a Pirelli, as duas estratégias levam, se nada de anormal ocorrer, a um tempo total de corrida bem próximo. Explico: Max largar com os macios, fazer um pit stop ao redor da 18ª volta, instalar os duros e seguir com eles até a bandeirada, na 58ª volta.

Já Hamilton, começa a prova com os médios, realiza a parada perto da 28ª volta e, com duros, também, completa as 30 voltas restantes.

Jogo de xadrez

O grupo de estrategistas da Red Bull, liderado pela engenheira Hannah Schimitz, acredita que Max mesmo parando antes mantenha-se na frente de Hamilton depois de ele fazer o seu pit stop. O inglês teria a vantagem de dispor de pneus duros, como Max, com cerca de 10 voltas a menos. Poderia ajudá-lo a um ataque nas voltas finais.

O interessante é que a estratégia original da equipe de Max era também usar os pneus macios no Q2, para largar com eles. Mas o piloto bloqueou os pneus médios em uma frenagem, destruindo aquele jogo, o que os obrigou a recorrer a um jogo de macios, estendendo a decisão, a seguir, para Perez.

Hamilton e Verstappen em Yas Marina – Kamran Jebreili/Reuters

Já os estrategistas da Mercedes, comandados por James Vowles, apostam que a maior autonomia permitida pelos pneus médios de Hamilton, na largada, o faça deixar os boxes à frente de Max e com menos voltas para completar até a 58ª.

Um safety car no primeiro terço de corrida ajudaria Max. Tanto Schimitz quando Vowles chamariam seus pilotos para o pit stop, o que extinguiria a vantagem de Hamilton poder completar menos voltas com os duros depois da parada.

Mario Isola, diretor da Pirelli, comentou que mesmo com a mudança no traçado, tornando-o mais rápido, o desgaste dos pneus não é elevado, por essa razão a estratégia de um único pit stop é ainda possível e a mais rápida.

Considere, também, que as temperaturas, tanto ambiente quanto do asfalto, não são elevadas – 27 e 29 graus Celsius neste sábado. Lembro que a maior parte da corrida se desenvolve com luz artificial, quando em geral há menos calor, colaborando para reduzir o estresse dos pneus.

Isso tudo pode levar algum piloto a tentar estender o uso dos pneus ao máximo para, dependendo das circunstâncias, realizar um segundo pit stop e sair com pneus macios para uma série curta de voltas voadoras, o que seria emocionante com o título em jogo.

Nunca subestime a Mercedes

O mais legal dessa história toda é que a disputa está totalmente aberta. No fim da definição do grid a Red Bull-Honda demonstrou poder contar com um conjunto, aparentemente, mais rápido, mas já vimos cenário semelhante e depois, no domingo, quem deu as cartas foi a Mercedes, com Hamilton.

Repito o meu palpite de quinta-feira: vejo Max e Hamilton com 50% de chances cada um de serem campeões nesta que é uma edição épica do mundial de F1.

Ah, são tantas as medidas e os anúncios da FIA para evitar um fim de campeonato ilegal que não há como acreditar, agora, em um desfecho decepcionante para a disputa ponto a ponto entre esses dois gigantes, Max e Hamilton. Bom GP de Abu Dhabi para todos nós.

Abraços.

Max e Hamilton estão sob a lente do microscópio da FIA. Não podem fazer nada de errado na corrida que definirá o campeão

Olá, amigos.

Max Verstappen e Lewis Hamilton que se cuidem na etapa final do campeonato, neste fim de semana, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, onde o que está em jogo é nada menos de o título mundial. Estão empatados com 369,5 pontos. Devem estar bem atentos ao que a FIA considera permitido e não autorizado a fazer na pista nas lutas por posições, apesar da subjetividade do tema, como temos visto este ano.

Os três comissários desportivos parecem ter sido escolhidos a dedo para a missão de controlar o comportamento dos pilotos nos três treinos livres, na sessão de classificação e ao longo das 58 voltas da corrida no novo traçado da pista árabe. Os três se enquadram no que bem podemos chamar de linha-dura.

A começar pelo australiano Garry Connelly, o mais experiente deles, nesse trabalho para a FIA desde 1989, e nas mais distintas competições, rali, carros de turismo e F1. É quase um comissário fixo, pois está presente em muitas etapas do calendário. Já expressou não apreciar o estilo agressivo demais de Max.

Foi um dos que votou, domingo, pelas duas punições ao piloto holandês no GP da Arábia Saudita: 5 segundos por ter levado Hamilton a sair da pista na curva 1, na 37ª volta, de um total de 50, a fim de evitar o choque entre ambos na luta pelo primeiro lugar, e 10 segundos por, na passagem seguinte, frear no instante em que cedia a liderança para o piloto da Mercedes, exatamente pela manobra ilegal de defesa de posição pouco antes.

Veja a classificação da F1

Outro comissário da 22ª etapa do campeonato é o alemão Felix Holter, líder da classe no ultradisputado Campeonato Alemão de Turismo, mais conhecido como DTM, membro do grupo internacional da FIA desde 2018. Ele promove cursos de formação de comissários desportivos. Também tem fama de não ser condescendente com pilotos que tenham reações extremas nas lutas com seus adversários.

Apesar de o texto do regulamento da FIA sobre ultrapassagens permitir interpretações diferentes, tanto Connelly quanto Holter têm histórico de serem rigorosos nas análises e interpretações do comportamento dos pilotos.

Regras deverão ser revistas

O candidato com maiores chances de assumir a presidência da FIA, na eleição do dia 17, em Paris, o inglês Graham Stoker, atual secretário geral da entidade, já disse que as regras sobre o que é permitido aos pilotos fazer e não fazer nas disputas de posição serão simplificadas, “a fim de melhor compreensão dos fãs”. Tomara seja mesmo assim.

Há ainda o comissário local, Mohamed Alhashmi, na área desde 2009, sempre presente como representante das confederações árabes nos GPs não somente de Abu Dhabi como do Barein. A FIA o homenageou por seu trabalho na melhoria da segurança estradal dos Emirados Árabes Unidos, em 2017. Ele administra, ainda, cursos de formação de comissários.

Para auxiliar no julgamento de eventuais casos de transgressão das regras, a FIA convidou como piloto-consultor do GP de Abu Dhabi o experiente Derek Warwick, 67 anos, com 162 GPs de F1 no currículo, de 1981 a 1993, tendo pilotado para Toleman, Renault, Brabham, Arrows, Lotus e Footwork.

Já exerceu a função em várias ocasiões. O piloto-consultor não vota, apenas opina. As decisões cabem aos três comissários que as encaminham para o diretor de prova, o cada vez mais criticado Michael Masi, 42 anos, da Austrália.

Michael Masi, diretor de provas da FIA (Divulgação/Fórmula1.com)

Em casos extremos, destituir o campeão

Outro sinal de que a FIA vai estar ainda mais atenta a tudo o que acontecer no Circuito Yas Marina, no seu comunicado distribuído às equipes, nesta quarta-feira, Masi lembrou a prerrogativa da entidade de, acredite, tirar pontos dos pilotos e das equipes nos casos de desrespeito ao estabelecido pelos regulamentos, esportivo e técnico. É mais um alerta de que o campeão de 2021 deverá sair de uma disputa limpa.

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Eu me lembro com grande clareza de uma conversa com Max Mosley, então presidente da FIA, no distante ano de 1997, em Jerez de la Frontera. Havia um grupo de jornalistas ao seu redor, horas depois da bandeirada. Estava lá.

Você se lembra do que aconteceu? Como já havia sido realizado o GP da Espanha, sexto do calendário, e havia espaço para mais uma prova de F1 no país, a 17ª e última foi disputada na pista da Andaluzia, com o nome de GP da Europa.

Max e Lewis duelam pelo título da F1 em 2021 – F1

Jacques Villeneuve, da Williams-Renault, se apresentou com 77 pontos na classificação, um a menos do sedento por títulos para a Ferrari, Michael Schumacher. Não eram campeões desde 1979. Na 48ª volta de um total de 69, Villeneuve colocou o carro por dentro na curva 6, no fim de uma reta, para tentar ultrapassar Michael Schumacher e assumir a liderança. Terminar na frente do alemão lhe garantiria o título.

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Schumacher não teve dúvida e repetiu a manobra de 1994, com Damon Hill, da Williams-Renault, em Adelaide, última etapa: jogou o carro deliberadamente no de Villeneuve para que ambos abandonassem. O seu ponto a mais no campeonato, 78 a 77, lhe permitiria ser campeão pela primeira vez com a Ferrari, terceiro título na carreira.

Só que dessa vez as coisas não fluíram como o planejado. Em Adelaide deu certo, em Jerez, Schumacher acabou na caixa de brita. O terceiro lugar de Villeneuve lhe deu o mundial.

Mensagem clara da FIA

Eu dizia de Mosley. Não vou recordar exatamente suas palavras, até porque conversou informalmente conosco. Mas disse-nos que a exclusão do título de vice-campeão de Schumacher, decidida por ele, apesar de parecer apenas simbólica tinha como principal objetivo passar uma mensagem. “Não mais é permitido ser campeão na F1 colocando o adversário com menos pontos para fora da pista, como vimos acontecer várias vezes no passado. Se isso acontecer, nós simplesmente lhe tiramos o título.”

Ele se referia à edição de 1989 da F1, quando em Suzuka Alain Prost provocou o choque com Ayrton Senna, na chicane, para gerar o abandono de ambos, pilotos da McLaren-Honda. E o troco de Senna, na curva 1 de Suzuka, no ano seguinte, com ele ainda na McLaren-Honda e Prost, Ferrari. Prost foi campeão em 1989 e Senna, 1990.

O atual presidente, ainda, da FIA, Jean Todt, apesar de ser em 1997 diretor geral da Ferrari, defende hoje a postura assumida por Mosley naquele ano.

Você reparou quantos filtros estão presentes na empolgante luta entre Max e Hamilton, Red Bull-Honda e Mercedes, no GP de Abu Dhabi? Comissários e piloto-consultor amantes da disputa sem controvérsias, experientes, o diretor de prova instruindo a todos dos direitos da FIA, sobre alterar a classificação, retirando pontos, e o histórico da entidade de colocar no passado distante ações ilegais deliberadas de pilotos para garantir a conquista do título.

Tudo isso para desestimular qualquer tentativa como a de Max, domingo, no GP da Arábia Saudita, no temível Circuito de Jeddah. Na 37ª volta, Hamilton tentou ultrapassá-lo na curva 1, para assumir a liderança, mas o holandês obrigou o piloto da Mercedes a ir para a área de escape a fim de evitar o choque entre ambos, como mencionei.

Holandês surpreendeu

Masi orientou o diretor esportivo da Red Bull-Honda, Jonathan Wheatley, no rádio, a pedir a Max para ceder o primeiro lugar a Hamilton, caso contrário encaminharia o ocorrido para os comissários. Ao ouvir seu diretor, Max reduziu a velocidade antes da freada da 27ª e última curva, esperou o piloto da Mercedes se aproximar e freou, fez o brake test, como o vídeo abaixo atesta:

O objetivo era provocar um acidente, levando-os a, por exemplo, abandonar a corrida, o que permitiria a Max estar agora em Abu Dhabi com os oito pontos a mais que tinha na classificação. Não deu certo também. Hamilton venceu, fez a melhor volta e Max recebeu a bandeirada em segundo.

Até a prova saudita, Max havia sido duro, sim, nas disputas com os adversários, mas nunca desleal. No meu entendimento, essa foi a primeira vez que procurou tirar Hamilton da pista de propósito. Muitos não esperavam reação semelhante.

Os dois pilotos mais espetaculares da temporada têm, como citado, o mesmo número de pontos, 369,5, mas o da Red Bull-Honda conta com uma vantagem que pode ser decisiva, dependendo do que acontecer no Circuito Yas Marina: obteve nove vitórias no ano diante de oito de Hamilton. Se os dois não marcarem pontos, Max fica com o título, por esse ser o primeiro critério de desempate.

Essa questão ajuda a explicar as muitas medidas tomadas pela FIA para evitar de uma edição tão especial do mundial de pilotos e construtores de F1 terminar sem respeito àquilo que a entidade mais procura observar, razão mesmo de sua existência secular: a lisura da disputa.

Como possuem a mesma pontuação, quem chegar na frente do outro, entre os dez primeiros, celebra o título. O primeiro de Max, o oitavo de Hamilton.

Os treinos livres começam nesta sexta-feira, às 6h30, com transmissão ao vivo pelo Bandsports. Boa definição do campeonato para todos nós!

Opinião

O que penso que dará? Não fico em cima do muro, você sabe, mas vejo Max e Hamilton com 50% de chances cada um, sem favoritos, apesar de a dupla Hamilton-Mercedes vir de três vitórias seguidas nas três últimas etapas do calendário, em São Paulo, no Catar e na Arábia Saudita.

O importante é que seja com Max ou Hamilton o título ficará com os melhores pilotos, destacados, do campeonato, haja vista que o terceiro colocado, Valtteri Bottas, companheiro do inglês, soma 218 pontos, ou 151,5 a menos dos líderes.

Mais: Mercedes e Red Bull-Honda se mostraram muito mais eficientes que a terceira colocada, Ferrari, como atestam os números. Os alemães, da equipe de Hamilton, lideram com 587,5 pontos, seguidos pelo time austríaco de Max, 559,5, enquanto os italianos somam 307,5, ou 280 a menos da Mercedes. Falta bem pouco para a Mercedes vencer seu oitavo mundial de construtores seguido. É reconfortante ver que tanto o mundial de pilotos quanto o de construtores ficarão com os melhores, de fato.

Abraços.

Punição para Max pelo brake test é ridícula. Mas Hamilton também deveria ser punido

Olá, amigos.

Chego já já no tão emocionante quanto controverso GP da Arábia Saudita, disputado metro a metro neste domingo (5).

Logo depois do GP da França de F1 de 2004, no Circuito de Magny-Cours, estava no pequeno grupo de jornalistas que conversou com Ross Brawn, diretor técnico da Ferrari e responsável pela estratégia de corrida de seus pilotos, Michael Schumacher e Rubens Barrichello.

Eu lhe pedi para analisar a performance de Schumacher, vencedor da prova, com quatro pit stops, previamente estudados, a fim de superar o pole position, Fernando Alonso, da Renault. Brown me respondeu: “The ultimate driver”, ou “O máximo de um piloto”.

Naquele mesmo ano, no GP do Japão, em Suzuka, Brown voltou a falar de Schumacher para mim. O alemão já havia conquistado três corridas antes, em Spa-Francorchamps, na Bélgica, o quinto título seguido, sétimo da brilhante carreira: “O piloto das causas impossíveis”.

Deu detalhes: “Eu digo a ele, Michael, você tem 18 voltas para abrir 16 segundos de determinado piloto para nossa estratégia poder dar certo, sabendo comigo que será muito, muito difícil que ele consiga. Mas na maioria das vezes eu me engano. Michael vai lá e me entrega o resultado que precisávamos para, no fim, vencermos. Eu não conheço nenhum outro piloto que seria capaz de fazer o que Michael faz”.

Calma, não estou maluco, não – ao menos ainda -, por começar a escrever de um evento que aconteceu há 17 anos enquanto o mundo da F1 está em ebulição depois dos acontecimentos do fim de semana no Circuito de Jeddah, estreia da Arábia Saudita no calendário da F1, deixando como saldo um cenário absolutamente espetacular para o evento de encerramento do ano, no reconstruído Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi: Lewis Hamilton, da Mercedes, vencedor, e Max Verstappen, Red Bull-Honda, segundo, com o mesmo número de pontos: 369,5!

Veja a classificação atualizada do Mundial

Ambos desembarcam nos Emirados Árabes Unidos com uma missão: terminar na frente do outro, não importa a colocação dentre os dez primeiros, para ser campeão. Max tem uma vantagem importante, uma vitória a mais, 9 a 8, primeiro critério no caso de empate de pontos.

Novo recorde do piloto da Mercedes

Você vai me entender melhor agora: vi grande relação de proximidade entre o que faz na pista Hamilton e o melhor de Schumacher, nas suas cinco últimas temporadas na Ferrari. A ponto de afirmar, hoje, depois de realizadas 21 das 22 etapas, que Hamilton quebrou mais um recorde histórico.

O piloto inglês de 36 anos, 287 GPs na bagagem e impressionantes 103 vitórias, 181 pódios e 103 pole positions, além, claro de sete mundiais, assumiu a primeira colocação no ranking dos pilotos das causas impossíveis. Schumacher está agora em segundo, empatado com Ayrton Senna.

Hamilton comemora vitória na Arábia – a terceira seguida no ano (Divulgação/Fórmula 1.com)

Que ranking é esse que eu nunca ouvi falar, você pode estar pensando, e com razão. Explico: eu o criei, com base no que ouvi de engenheiros que trabalharam com os mais distintos pilotos que já passaram pela F1. De Senna, por exemplo, minhas referências são Pat Symonds, da sua época de Toleman, Giorgio Ascanelli e Steve Hallam, McLaren.

Os tempos são outros, é verdade, mas Hamilton tem se caracterizado também por encontrar meios para vencer as corridas que, em condições normais, a maioria dos pilotos não apenas não receberia a bandeirada na primeira colocação como assistiria ao restante da competição de fora do cockpit, por as ter abandonado.

O mais difícil não é vencer, mas não vencer

Eu começo a me perguntar o que é preciso para Hamilton não vencer um GP de F1, enquanto a lógica é fazermos a pergunta de forma exatamente oposta, o que é preciso para um piloto vencer um GP de F1.

Ele combina habilidade quase sem precedentes com uma visão de corrida única, sustentado – é bom que se diga – por um grupo de técnicos dos mais competentes, liderados por Peter Bonnington e na estratégia, James Vowles. Não gosto de usar a palavra a seguir por não acreditar nela, sorte. Mas precisamos reconhecer que com Hamilton o número de ocorrências favoráveis, ou sorte, é elevado.

Nós já o vimos vencer com apenas três pneus, pois o dianteiro direito dechapou na última volta, em Silverstone, 2020. Depois, no mesmo circuito, este ano, envolveu-se em um perigoso acidente com Max na veloz Curva Copse. Seu Mercedes W12 não foi danificado, mas Hamilton recebeu punição de 10 segundos, o que não o impediu, em absoluto, de também celebrar a vitória.

E neste domingo sobreviveu a tudo. Primeiro, depois de largar na pole position e realizar o primeiro pit stop na décima volta, de um total de 50, em regime de safety car, viu Max aproveitar-se da bandeira vermelha, quando era líder, ordenada pelo inseguro diretor de prova, Michael Masi, na 13ª volta, para também substituir os pneus Pirelli médios da largada pelos duros, destinados a seguir no carro até a bandeirada.

Diretor de prova inexperiente

Hamilton começou o GP da Arábia Saudita liderando, com o companheiro, Valtteri Bottas, em segundo, e Max, terceiro. Como Max não fez o pit stop, como Hamilton e Bottas, na décima volta, ele assumiu o primeiro lugar. Mas a paralisação da corrida, na 13ª volta, lhe dava o direito de trocar os pneus. Assim, ganhou a posição de Hamilton e Bottas por conta da bandeira vermelha.

O ritmo do modelo RB16B-Honda do holandês não sugeria poder ultrapassar o W12 da dupla da Mercedes.

Michael Masi, diretor de provas da FIA (Divulgação/Fórmula1.com)

A F1 precisa rever suas regras, torná-las dentro do possível mais claras e, com todo respeito, ter um diretor de prova mais experiente. Imagine que Masi decidiu-se pelo safety car, na décima volta, o que levou nada menos de sete pilotos a realizarem sua parada, com o objetivo de, com pneus duros, não mais precisarem voltar aos boxes. Era a estratégia mais apropriada.

Foram eles: Hamilton, Bottas, Charles Leclerc, Ferrari, quarto, Sérgio Perez, da Red Bull-Honda, quinto, Lando Norris, McLaren-Mercedes, sexto, Nicolas Latifi, Williams-Mercedes, 12º, e Fernando Alonso, Alpine, 13º.

Mas logo em seguida o mesmo Michael Masi ordenou a paralisação da corrida, por entender que demoraria mais do previsto a substituição ou organização da barreira de proteção, danificada pelo choque da Haas-Ferrari de Mick Schumacher na rápida curva 22, na décima volta, origem do safety car.

Veja a consequência dessa incerteza: Max saltou de terceiro para líder e em outra pista, menos imprevisível e perigosa como a de Jeddah, talvez pudesse manter-se na frente até o fim. Resultado dessa hesitação de Masi? Max daria um passo gigantesco para ser campeão.

Perceba que os problemas de gestão da corrida começaram já aí, com a interferência indesejável de Masi no eventual resultado do GP da Arábia Saudita e, por conseguinte, na definição do título. Ele deveria saber que quando ordena o safety car e logo em seguida a bandeira vermelha, de paralisação, os desdobramentos para o resultado podem ser imensos, exatamente por ser permitida a troca de pneus e outros reparos no carro.

E estamos na fase mais decisiva do campeonato, onde qualquer coisa, por mais simples que seja, pode determinar se o campeão será Max ou Hamilton.

Eu me lembro de conversarmos com Jenson Button, da McLaren-Mercedes, no GP de Mônaco de 2011. O inglês, sempre moderado, estava bastante irritado. Ocupava o terceiro lugar, mas tanto Fernando Alonso, da Ferrari, segundo, quanto Sebastian Vettel, Red Bull-Renault, líder, estavam com os pneus no seu limite extremo.

Ainda que estivesse no Circuito de Monte Carlo, é possível que Button os ultrapassasse. Mas aí veio uma bandeira vermelha, dando chance a Vettel e Alonso de recomeçarem a prova com pneus novos. Button teve de se contentar com a terceira colocação.

Discussão não profissional

Vamos em frente nos tiros de bazuca desferidos contra Hamilton ao longo da prova e, incrivelmente, sobreviveu quase sem danos, a ponto de vencê-la.

Na segunda largada, durante a volta de alinhamento, Hamilton acelerou pouco e se aproximou muito lentamente da sua posição no grid, para que os pneus de Max, na primeira posição, perdessem temperatura, dificultando a tração, o que facilitaria retomar a liderança.

É exatamente o que acontece. Mas o holandês não admite a ultrapassagem e se mantém em primeiro utilizando-se, porém, da área de escape da Curva 1. Os comissários vão analisar.

Sigamos com o fogo cruzado contra Hamilton. Nessa segunda largada, um contato entre Perez e Leclerc gerou outro acidente envolvendo Nikita Mazepin, Haas-Ferrari, e George Russell, da Williams-Mercedes. Masi de novo paralisou a corrida.

Após cerca de 20 minutos tivemos a terceira largada do GP da Arábia Saudita. Antes, porém, ouvimos uma discussão não vista até hoje na F1: Masi negociando com Jonathan Wheatley, diretor esportivo da Red Bull-Honda, e Ron Meadows, da Mercedes, a ordem dos pilotos no grid. Acredite ou não foi o que escutamos no rádio.

Max foi obrigado a voltar para terceiro, punido por usar a área de escape da Curva 1 para se manter em primeiro em seguida à segunda largada. Por esse “acordo”, Hamilton ficaria com o segundo lugar e o surpreendente Esteban Ocon, da Alpine, em primeiro.

Um diretor de prova não tem de negociar nada, muito menos a colocação dos pilotos no grid. Há um regulamento que deve ser respeitado e pronto. Ele determina a ordem de largada baseada nessas regras e a insere no computador. As equipes e os comissários vão lê-la e acatá-la. Aquele diálogo demonstrou a insegurança de Masi, tornando o ambiente, já naturalmente tenso, ainda mais efervescente, não somente entre Max e Hamilton como entre os diretores de seus times, Toto Wolff, Mercedes, e Christian Horner, Red Bull-Honda.

À prova de choque

Na terceira largada, dando início à 16ª volta, Hamilton demonstrou, de novo, estar com um tanque de guerra nas mãos, não um sensível carro de F1. Ficou espremido na Curva 1 entre Max, por dentro, e Ocon, por fora. Tocou roda com o francês, destruindo parte da parede direita do aerofólio dianteiro do blindado W12. Seu ritmo, contudo, pouco foi alterado.

Max optou pelos pneus médios enquanto Hamilton, duros. E restavam 34 voltas pela frente nesse traçado de alto risco, com 6.174 metros, 27 curvas, boa parte cega, ou seja, o piloto entra a inicia em altíssima velocidade e não vê o meio e a saída, com muro dos dois lados. No meu entendimento, uma irresponsabilidade!

Já na 18ª volta Hamilton ultrapassou Ocon para ficar a 1s141 de Max, líder, após deixar de forma sensacional Hamilton e Ocon para trás na terceira largada, ainda na Curva 1.

Se até agora os disparos contra Hamilton foram de bazuca, na 38ª a artilharia decidiu usar armas mais pesadas, canhões de laser, para garantir que não seguisse na competição. Mas de novo sem sucesso. Na passagem anterior, 37ª, Hamilton tenta reassumir a liderança e percorre a Curva 1 lado a lado com Max. O holandês obrigou Hamilton a ir para a área de escape, caso contrário a colisão seria inevitável. Como fez, está previsto na regra, é proibido.

Masi entra em contato com Wheatley para que ordene a Max devolver a posição a Hamilton. Max espera Hamilton se aproximar para, antes da última curva, deixar o piloto inglês ultrapassá-lo.

Manobra antiesportiva

Mas o faz de forma a decepcionar seus admiradores, como eu. Espera Hamilton chegar bem perto, posiciona-se do lado direito da pista e quando o adversário está bem perto, tira o pé do acelerador, chegando mesmo a frear, o chamado brake test. Hamilton não esperava a manobra e colide o já combalido aerofólio dianteiro do W12 contra a estrutura deformável do RB16B-Honda de Max, última parte do carro, conectada à caixa de câmbio.

O aerofólio de Hamilton, descobrimos, deve ser confeccionado com uma fibra de carbono superespecial, capaz de suportar o impacto direto de um míssil balístico. Os danos são, contra todas as expectativas, limitados.

O fato é que Hamilton seguiu atrás de Max até a 43ª volta. Ganha sua posição, mas Max tem direito ao DRS em seguida, retomando a liderança. Na passagem seguinte, já com os pneus médios da 15ª volta, diante de duros do concorrente, Max perde velocidade. Hamilton se aproveita e o ultrapassa, desta vez sem que o holandês possa fazer algo.

Ele seria punido com 5 segundos pela defesa irregular de posição na 37ª volta, na Curva 1, e com 10 segundos por ter agido de má-fé na tentativa de facilitar a ultrapassagem de Hamilton, quando freou na reta, provocando o choque da Mercedes na traseira da Red Bull. Ganha, ainda, 2 pontos na carteira, atingindo 7 dos 12 permitidos antes de ser suspenso por um GP.

As duas punições não alteraram o resultado final da corrida. Depois de perder a liderança para o adversário, a seis voltas da bandeirada, Max não tinha mais velocidade para acompanhá-lo. E Ocon, terceiro na 44ª volta, estava 24s953 atrás.

Holandês inconformado

Verstappen reclamou após segundo lugar na Arábia (Divulgação/Fórmula 1.com)

“Incrível, o que aconteceu hoje aqui não é mais F1”, afirmou Max, logo após a bandeirada. Ele esteve bem perto de quase garantir o seu primeiro, legítimo e merecido título, caso o consiga, e terminou a 50ª volta vendo Hamilton vencer pela terceira vez seguida, com ele em segundo, e extinguir a diferença entre ambos que era de 19 pontos depois do GP do México.

O que o piloto da Red Bull-Honda leva consigo para o Circuito Yas Marina é a vitória a mais na temporada, como mencionei.

Você fez as contas? Hamilton chocou-se com Ocon na terceira largada, depois na traseira do carro de Max, e o aerofólio não apenas está no lugar, com pequenas alterações, como permite a Hamilton estabelecer, na 47ª volta, a melhor do GP da Arábia Saudita, 1min30s734, à média de 244,962 km/h, garantindo-lhe o ponto que o deixa com a mesma pontuação de Max.

Compreendeu melhor a minha pergunta inicial, o que é preciso para Hamilton não vencer um GP?

Faltou coragem para punir o piloto inglês

Ainda sobre Hamilton, você viu que ele deixou um espaço maior de dez carros para o líder do pelotão, Max, na volta de alinhamento para a segunda largada. O piloto da Red Bull-Honda reclamou, no rádio, para sua equipe, que comunicou a possível infração a Masi.

A resposta foi que essa regra vale para a volta de apresentação da primeira largada, não as demais. Pensei comigo: Masi deve estar brincando! É algo para ser revisto de imediato, como é a liberdade de troca de pneus nos casos de paralisação da corrida.

Também não foi nada criterioso os comissários não punirem Hamilton, já no sábado, por manter-se na trajetória, na fatídica curva 22, percorrida a 260 km/h, a mesma em que Leclerc, na sexta-feira, e Mick Schumacher, neste domingo, se acidentaram. O russo Mazepin teve uma fração de segundo para desviar da traseira da Mercedes de Hamilton, bem mais lenta na pista. Havia desde a quinta-feira um acordo entre Masi e os pilotos de não permanecerem na trajetória normal se não estivessem acelerando para valer.

Reparou quantas situações controversas mencionamos nessa conversa? Que tal se todos os segmentos envolvidos com a disputa da F1 sentassem para esclarecer o que for possível e colocar em prática já em 2022? Os pilotos, seus engenheiros e estrategistas não mais sabem o que é permitido e proibido fazer na F1.

2021 como 1974

Quando foi a última vez que a disputa pelo título teve dois ou mais pilotos na última etapa com o mesmo número de pontos? Na minha pesquisa detectei o campeonato de 1974. Eu me lembrei, enquanto estudava, de ouvir de Niki Lauda, em mais de uma ocasião, que seu maior erro, como piloto, foi cometido naquele ano. Chego lá.

O último GP de 1974 foi no Circuito de Watkins Glen, no norte do Estado de Nova York, próximo à fronteira com o Canadá, 14º de um total de 15. Emerson Fittipaldi, da McLaren-Cosworth, e o suíço Clay Regazzoni, Ferrari, se apresentaram com 52 pontos. Mas Emerson, como Max agora, tinha mais vitórias, 3 a 1: em Interlagos, Nivelles, na Bélgica, e Mosport Park, Canadá. Já Regazzoni foi primeiro na Alemanha, em Nurburgring.

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Na classificação, no sábado, nem Emerson nem Regazzoni foram bem, oitavo e nono no grid, com Carlos Reutemann, da Brabham-Cosworth, na pole position. No domingo, o modelo Ferrari 312B3 de Regazzoni apresentou um problema pouco comum, perda de pressão em um amortecedor dianteiro. Curiosamente, o mesmo aconteceu com o companheiro, Lauda.

O suíço parou nos boxes duas vezes, na tentativa de tornar o carro guiável, mas sem sucesso. Terminou em 11º, com quatro voltas a menos do vencedor, Reutemann. Emerson correu para ser campeão, seu segundo título, ao receber a bandeirada em quarto.

Sobre Lauda, na etapa anterior a de Watkins Glen, no veloz Circuito de Mosport Park, próximo a Toronto, Lauda liderou da largada à 67ª volta de um total de 80. Uma leve distração, como me contou – tinha ótimo relacionamento profissional com ele -, deixou sua Ferrari escapar para o lado sujo do asfalto, perdendo seu controle. Colidiu e abandonou. Chegaria na corrida seguinte com chance de ser campeão também.

Emerson Fittipaldi foi campeão em 1974 (McLaren/Twitter)

Emerson, então segundo colocado naquele GP do Canadá, herdou a liderança da prova, vencendo-a, o que o colocou em boa condição de definir a conquista do campeonato no GP dos Estados Unidos, na mesma pista onde venceu seu primeiro GP, com Lotus-Cosworth, quatro anos antes.

Opinião

As duas punições a Max procederam. A primeira, por sua disputa com Hamilton na Curva 1, na segunda largada. Estavam lado a lado, tem de dar o espaço de um carro para o adversário. Levou 5 segundos.

A segunda, de 10 segundos, saiu de graça e foi política, pois os comissários sabiam que não iriam alterar o resultado da corrida, mantendo a paridade de pontos entre ambos para a etapa de encerramento da temporada. Não hesite em acreditar que quando há chance é assim que a F1 funciona.

Um piloto que tenta provocar um acidente, como fez Max, para minha surpresa, deveria ser mais bem punido.

E tudo poderia ser diferente, também, se Hamilton tivesse perdido, digamos, três posições no grid por estar na trajetória regular, na curva 22, apesar de lento, no sábado, contra o acordo com dos pilotos com a direção de prova. Faltou coragem para puni-lo.

Nos falamos antes dos treinos do GP de Abu Dhabi, na sexta-feira.

Abraços.

Não acredito em ação deliberada de Max ou Hamilton para provocar um incidente e conquistar o título

Olá, amigos.

Pessoas que sabem da minha vivência no mundo da F1 me perguntaram, com frequência, na semana passada, se acredito que Max Verstappen será capaz de provocar um acidente com Lewis Hamilton no GP da Arábia Saudita, no fim de semana, a fim de tirar proveito dos 8 pontos que tem a mais na classificação do campeonato.

Com o adversário fora da disputa no perigoso Circuito de Jeddah, estreante no calendário, bastaria a Max receber a bandeirada em segundo para garantir a conquista do seu primeiro título. O Bandsports transmite o primeiro treino livre nesta sexta-feira a partir das 10h30, horário de Brasília.

Mais: no caso de Hamilton sair da pista árabe como líder na classificação, se ele não poderia provocar um acidente com Max na prova de encerramento da temporada, dia 12, no renovado Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, para tornar-se o recordista absoluto da história, com oito títulos. Michael Schumacher tem, como Hamilton hoje, sete.

Respondo curto e grosso: não acredito! Se acontecer de os dois ficarem no caminho nas duas provas finais, como vimos este ano em Silverstone, décima etapa, dia 18 de julho, e Monza, 14ª, 12 de setembro, será em razão de incidentes de corrida, como foram os dois mencionados.

Hamilton acabou punido pelos comissários, na Inglaterra, por ter responsabilidade no choque que tirou Max da prova na veloz Curva Copse. E o holandês, na Itália, por ser o maior culpado pelo encontro do seu Red Bull RB16B-Honda com o Mercedes W12 do inglês na primeira chicane de Monza.

Carro de Verstappen ficou em cima do carro de Hamilton após batida em Monza – Reprodução/Band

Mas em nenhum momento os comissários mencionaram que foram ações deliberadas de Hamilton ou Max. Os dois se caracterizaram por serem incidentes da competição, porém com responsabilidade maior de um ou outro piloto, ocorrência natural da luta ponto a ponto pela liderança do campeonato.

Vários exemplos no passado

É um cenário bem distinto do que vimos na F1 por exemplo em quatro ocasiões, 1989, 1990, 1994 e 1997, em que os pilotos envolvidos, líderes do campeonato, aproveitaram a oportunidade na última ou penúltima etapa da temporada para, propositalmente, provocar um acidente a fim de retirar o adversário da disputa e, com pontos a mais na classificação, conquistar o título.

Relembre:

Prost, Senna, Schumacher e Hill: acidentes polêmicos marcaram decisões da F1

Época, regras e controles distintos dos de hoje, pilotos que se formaram assistindo a acontecimentos dessa natureza e comissários desportivos ou mesmo a FIA não tomarem nenhuma atitude para moralizar a situação. Max e Hamilton sabem que de uns bons anos para cá as coisas não são mais bem assim.

No GP do Japão de 1989, na 47ª volta de um total de 53, já próximo da bandeirada, Alain Prost, líder, viu Ayrton Senna, segundo colocado, colocar o carro na trajetória interna da primeira perna da última chicane do Circuito de Suzuka, para ultrapassá-lo, e virou o volante para a direita, a fim de provocar o choque entre ambos. Eram companheiros na McLaren-Honda.

Senna x Prost (1989)
Senna x Prost (1989)

Os dois chegaram para o GP do Japão, penúltimo, com o francês na liderança do mundial com 76 pontos úteis dos 81 obtidos nas 14 etapas disputadas. Senna estava em segundo, com 60 pontos. Era permitido somar somente os 11 melhores resultados das 16 provas do calendário.

Senna conseguiu ainda regressar à pista depois do toque com Prost, cortando a área de escape da chicane, e vencer a corrida. Mas o então presidente da Fisa, braço esportivo da FIA, extinto anos mais tarde, Jean-Marie Balestre, francês, interveio, ordenando os comissários desclassificarem Senna. Admitiu, muito tempo mais tarde, que fez aquilo para favorecer Prost.

O fato é que aquela ação deliberada do piloto francês fez com que Senna não pudesse mais alcançá-lo na etapa de encerramento, em Adelaide, Austrália, levando-o a comemorar a conquista do seu terceiro título. O vencedor recebia 9 pontos e a diferença entre ambos já era de 16 pontos.

Olho por olho, dente por dente

No ano seguinte, Prost pilotava para a Ferrari. Senna seguiu na McLaren-Honda. Desembarcaram em Suzuka, para o penúltimo GP do mundial, com Senna na liderança, 78 pontos diante de 69 de Prost. Senna largou na pole position, mas Prost, segundo no grid, chegou um pouco à frente, por fora, na freada da veloz Curva 1.

Senna não hesitou em dar o troco. Manteve o pé no acelerador e provocou o choque com a roda traseira direita da Ferrari do francês, lançando-os, em alta velocidade, para a área de escape. Só por sorte não se feriram. Os dois mantiveram a pontuação que tinham, 78 a 69.

Na última corrida, em Adelaide, Prost poderia vencer e Senna não pontuar, permitindo ao francês igualar o número de pontos, 78 (69+9). Os dois ficariam empatados em número de vitórias, 6, e de segundos lugares também, 2, os dois primeiros critérios de desempate. Já em terceiras colocações, critério seguinte, Senna tinha 3 e Prost, 2. Resultado: Senna campeão, pela segunda vez, em Suzuka.

No ano seguinte Senna admitiria que agiu como Prost no ano anterior.

Senna x Prost (1989)
Senna x Prost (1989)

Schumacher tentou duas vezes, a primeira deu certo

Em 1994 foi a vez de Michael Schumacher, da Benetton-Ford, seguir a escola de Prost e Senna. Eu estava presente, em Adelaide, fui testemunha do que se passou.

O piloto alemão disputava seu primeiro título, estava muito nervoso. Bateu no muro nos treinos livres de sexta-feira e do sábado, neste com grande violência. Na corrida, seu estado emocional o fez perder o controle do carro, quando liderava, e de novo colidiu sozinho contra o muro ainda na 35ª volta de um total de 81.

Com o carro se arrastando pela pista, esperou Damon Hill, da Williams-Renault, se aproximar para de forma impressionantemente clara jogar sua Benetton na direção da Williams, quebrando-lhe a suspensão dianteira.

Schumacher x Hill (1994)
Schumacher x Hill (1994) – F1

Schumacher tinha antes da largada 92 pontos enquanto Hill, 91. Era a última etapa. Com o abandono de ambos, o alemão foi campeão. Os comissários não viram a ação deliberada de Schumacher e o título foi mantido.

Também estava presente no GP da Europa de 1997, em Jerez de la Frontera, na Espanha, quando Schumacher tinha chance de dar o primeiro título a Ferrari depois de 18 anos. Ele somava 78 pontos ao passo que Jacques Villeneuve, da Williams-Renault, 77.

A mesma receita de 1994 foi tentada por Schumacher em 1997. Ao ver que seria ultrapassado por Villeneuve, na 47ª volta de um total de 69, sem desfaçatez alguma virou bruscamente o volante, no meio da curva, para atingir a Williams do canadense na lateral.

Mas quem espirrou no choque foi ele. A sua Ferrari acabou na caixa de brita. Villeneuve seguiu na prova, terminou em terceiro e comemorou o título.

Mensagem importante do então presidente da FIA

O que aconteceu a seguir não teve efeito prático algum, mas serviu de mensagem para quem tentar manobra semelhante a fim de ser campeão. Max Mosley, então presidente da FIA, decidiu retirar o título de vice-campeão do mundo de Schumacher.

Em conversa conosco, Mosley disse, literalmente, que ações dessa natureza, em especial nas definições de título, terão consequências graves para os responsáveis. Deu a entender que a entidade não pensaria duas vezes em retirar o título se assim for conquistado, passando por cima até das decisões dos comissários do GP, caso decidissem não punir o piloto que, de maneira inequívoca, agiu deliberadamente para provocar o abandono do concorrente.

Mosley não é mais presidente da FIA desde 2009 e até já faleceu, este ano, aos 81 anos. Mas seu sucessor, no fim do terceiro e último mandato também, Jean Todt, não vai aceitar um campeão que não tenha obtido o título legalmente na pista.

Mas, como escrevi, não creio que a situação chegue a esse ponto entre Max e Hamilton. Até agora os dois nunca agiram de maneira proposital na pista para se beneficiarem de seja lá o que for.

Max é contestado por causa da maneira tenaz, combativa como defende suas posições. O melhor exemplo é a primeira tentativa de Hamilton ultrapassá-lo na Descida do Lago, em Interlagos, na 48ª volta de um total de 71 do GP de São Paulo, dia 14. O holandês, por dentro, estava rápido demais para fazer a curva. Seu carro escorregou, obrigando o inglês a ir para a área de escape também caso contrário os dois colidiriam.

Veja a classificação da F1

Os comissários interpretaram como incidente de corrida e não puniram Max, para a revolta de Hamilton e de tantos outros na F1. Bem, como escrevi lá em cima, Max virar o volante e seguir em frente por estar rápido demais, exigindo reação semelhante de Hamilton, é diferente de procurar atingir o adversário para tirá-lo da corrida.

A manobra de Max que impediu, naquele momento, a ultrapassagem de Hamilton foi somente uma tentativa de defesa de posição, com consequências para o piloto que tentava ganhar sua posição. Não tem a ver com o fato de liderar o campeonato. É provável que se o GP de São Paulo fosse o de abertura do mundial a escolha de Max fosse a mesma.

Nem sempre é fácil entender a real intenção do piloto

É fácil para os comissários concluírem que um piloto agiu com má fé para prejudicar o concorrente? Nem sempre. Estava em Mônaco, em 2014, quando os comissários solicitaram à equipe Mercedes os dados de telemetria do carro de Nico Rosberg, o pole position.

Isso porque na parte final da classificação, no Q3, ele, até então autor do melhor tempo, travou os freios na aproximação da Curva Mirabeau e seguiu reto para a reduzida área de escape. Estava, como todos, com o segundo e último jogo de pneus. Faltavam poucos segundos para o fim da definição do grid.

Hamilton, seu companheiro de Mercedes, havia registrado a melhor primeira parcial da pista e tinha boas chances de ultrapassar Rosberg na classificação, obter a pole position, muito importante na pista de Monte Carlo, onde as ultrapassagens são bem difíceis.

O Mercedes de Rosberg estacionado na área de escape da Mirabeau levou os comissários de pista a expor a bandeira amarela. Resultado: ninguém pôde melhorar o tempo registrado com o primeiro jogo de pneus, garantindo não apenas a pole para Rosberg como a vitória no dia seguinte.

Veja também:

Os dados de telemetria da Mercedes e as várias imagens de TV disponibilizadas aos comissários não foram suficientes para rever o resultado. Não houve, para eles, intenção de Rosberg.

Atente: quase não havia profissional no paddock da F1, naquele dia, que não exibisse um sorriso maroto com a decisão dos comissários. Para a grande maioria, foi uma ação deliberada de Rosberg a fim de lhe garantir a pole position e largar, no domingo, com elevadas chances de receber a bandeirada em primeiro, como aconteceu.

Rosberg não somente venceu como assumiu a liderança do campeonato. Saiu de Mônaco com 122 pontos diante de 118 de Hamilton. Mas aquela era ainda a sexta etapa de um calendário com 19. No último GP, em Abu Dhabi, com a vitória Hamilton garantiu o segundo título da carreira.

O que Max precisa para ser campeão domingo

Você lembra da matemática do título, publicada aqui no blog? Apenas Max tem chances de ser campeão no fim de semana no Circuito de Jeddah. Hamilton, não. O holandês soma 351,5 pontos, tem sete vitórias, diante de 343,5 do inglês, com cinco.

Max celebra o título se vencer, fizer a melhor volta e Hamilton terminar no máximo em sexto. Max pode ainda vencer, não registrar a melhor volta, mas Hamilton não pode ir além do sétimo lugar.

Até com a segunda colocação e a melhor volta Max pode ser campeão. Nesse arranjo Hamilton tem de receber a bandeirada de décimo para trás. Se Max for segundo e não estabelecer a melhor volta, vence o campeonato se Hamilton não marcar pontos.

Bom GP da Arábia Saudita para todos nós. Torçamos para os riscos dessa pista com um segmento de três mil metros de aceleração plena, quase o tempo todo, e sem área de escape não propiciarem nenhum acidente mais sério.

Abraços.

Será que você conhece mesmo quem foi Frank Williams?

Aqui, uma visão distinta e mais profunda desse riquíssimo personagem da F1.

Olá, amigos.

Foi com tristeza, mas não surpresa, que soube neste domingo da perda de Frank Williams, aos 79 anos. Obviamente temos de falar desse homem que está dentre os que mais me impressionaram não somente na F1, mas na vida. Atente à extensão do que escrevi. É provável que ao longo do texto você me entenda melhor.

Na minha trajetória na F1 entrevistei Sir Frank Williams muitas vezes. Era daqueles profissionais do meio em que eu parava na porta do motorhome da sua equipe, o via disponível lá dentro, sem ninguém ao redor, e eu levantava o indicador para sinalizar que gostaria de lhe fazer algumas perguntas.

Na grande maioria das vezes Frank Williams acenava com a cabeça e piscava longamente os olhos, autorizando a minha aproximação. Quase não conseguia mexer os braços. Quando não era possível, lançava a cabeça para o lado, senha para passar depois. Sempre foi bastante atencioso e incrivelmente objetivo nas respostas. Não se eximia de falar sobre seja lá o que fosse.

Antes de selecionar o que de mais importante ouvi de Frank Williams – e há coisas extraordinárias -, descrevo um pouco do seu mundo, da sua forma única e impressionante de viver. Era um verdadeiro apaixonado pelo automobilismo, um autêntico garagista, expressão usada para definir os idealistas que, a partir de uma garagem, construíram um império de sucesso na F1.

Minha profunda admiração por ele vem dessa identificação com o esporte que você e eu amamos também, mas principalmente da sua tenacidade, força interior, capacidade de transpor desafios, por décadas, que a esmagadora maioria dos seres humanos não seria capaz. Sem mencionar a inteligência, claro.

Acidente de carro devastador

Dou logo uma ideia do que desejo dizer. Vou me estender um pouco no assunto por ser o que mais me sensibilizava nesse ícone da história da velocidade: no dia 8 de março de 1986, um sábado, Frank Williams e o seu diretor comercial – mais tarde viria a ser diretor esportivo -, Peter Windsor, deixaram o circuito de Paul Ricard, próximo a Marselha, no sul da França, para com o carro alugado, um Ford Sierra 1600, dirigirem-se até o aeroporto de Nice, 160 quilômetros distante, de onde voariam para Londres.

O próprio Windsor me deu os detalhes do ocorrido, anos mais tarde.

A estrada entre o autódromo e a autoestrada que corta o sul da França, objetivo inicial do deslocamento, acompanha as encostas das montanhas baixas da região, é cheia de curvas fechadas. Morei 12 anos em Nice e conheço bem a área. Frank Williams sempre afirmou amar a velocidade. Não começou como dono de equipe, mas como piloto.

https://twitter.com/WilliamsRacing/status/1464962458582462464

Gostava de acelerar. Junte essa sua característica de dirigir rápido com o desejo de estar em Londres ainda naquele sábado a fim de, no dia seguinte, disputar uma minimaratona, mais os perigos naturais daquela estrada e você tem os ingredientes básicos para um acidente. Frank Williams era um atleta dos mais dedicados.

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Nos autódromos, me contam os amigos presentes na F1 naquele tempo, era possível ver Frank Williams correndo nas pistas no fim de tarde. Não peguei essa fase. Quando comecei na F1 como jornalista, em 1987, Frank Williams já estava bastante debilitado em termos de poder se mover.

Uma fatalidade

Pois bem, Frank Williams perdeu o controle do carro e colidiu contra a mureta baixa de proteção – até hoje é a mesma. O Sierra levantou e rolou algo como 3 metros no barranco. Os danos no veículo não foram muito grandes, mas por um incrível azar do motorista o teto afundou bem sobre a sua cabeça, comprimindo-a no tórax.

Isso causou a fratura da 4ª e 5ª vértebras cervicais e a consequente lesão neurológica. Você sabe, a coluna nervosa percorre as vértebras por dentro. Apesar de consciente, Frank Williams, além de não mais mexer braços e pernas tinha dificuldades respiratórias em razão de a fratura ter atingido a inervação da musculatura intercostal, a que controla os movimentos da caixa toráxica na respiração.

No hospital na França e logo depois na Inglaterra Frank Williams recebeu tratamento intensivo por longo tempo, o que o fez sobreviver, mas desde então e até a sua morte só se manteve vivo porque fazia longos exercícios respiratórios diários! Windsor não sofreu praticamente nada no acidente.

Não escondia nada de ninguém

Quer saber? Nunca escondeu de ninguém suas severíssimas limitações. Como quase não mexia os braços, fazia as refeições no motorhome da equipe com a ajuda de um acompanhante em regime integral. Não se importava de os outros verem uma pessoa com garfo ou colher na mão alimentando-o e limpando sua boca com o guardanapo.

Não se importava em dizer aos muitos e muitos que ao chegarem perto dele no paddock e estendiam a mão para cumprimenta-lo ou pedir um autógrafo, sempre com um sorriso no rosto para reduzir o constrangimento geral: “I am sorry, I can’t move my arms. Thank you for the support”. Ou: “Desculpe, eu não consigo mexer meus braços. Obrigado pela torcida”.

Também não procurava esconder o grande volume das suas calças na altura da cintura. A lesão na coluna cervical fez perder o controle dos esfíncteres, uretral e anal. Em outras palavras, usava fraldas por não controlar o desejo de urinar e defecar.

Movimentava-se pelos paddocks com o auxiliar empurrando sua cadeira de rodas. No motorhome da Williams havia um elevador para a cadeira. Na sala de entrevistas da FIA permanecia um tanto isolado dos demais entrevistados por conta de seguir na cadeira de rodas.

Se existe um homem que se assumia integralmente, não escondia nada, expunha as importantes deficiências na sua vitrine, era Frank Williams. E como demonstrava ser feliz!

Incrivelmente manteve-se no topo

Repare que nada disso o impedia de administrar a super bem estruturada sede de Didcot e depois Grove, a uma hora de carro de Silverstone, com seus mais de 500 funcionários, de onde saíam carros campeões do mundo, estabelecer acordos comerciais dentre os de maior valor na F1, e liderar o time nos fins de semana de competição nos autódromos.

Uma máxima que percorre os paddocks da F1: enquanto Frank Williams investe na melhora da infraestrutura de sua escuderia cada libra que ganha, Eddie Jordan, ex-fundador e sócio da Jordan, pratica a filosofia do uma libra para o time e duas para o meu bolso.

De 8 de março de 1986 a 21 de agosto de 2020, quando a Williams Grand Prix Engineering foi vendida ao grupo de investimento americano Dorilton Capital, a Williams conquistou os mundiais de pilotos de 1987, 1992, 1993, 1996 e 1997. E o de construtores, em 1986, 1987, 1992, 1993, 1994, 1996 e 1997.

Antes de Frank Williams se acidentar, já havia vencido as edições do campeonato de pilotos de 1980 e 1982, e o de construtores, de 1980 e 1981.

Não tinha dinheiro para a passagem

Bem, esse é o lado rico de Frank Williams. Mas nem sempre foi assim. Emerson Fittipaldi contou-me que o dirigente inglês pedia carona no seu avião fretado para ir às corridas, no começo dos anos 70, quando nem construía os próprios carros, comprava-os da March. Não tinha dinheiro para nada.

Tudo mudou quando Frank Williams, em 1977, convenceu os sauditas a começar a investir no seu projeto. Com orçamento decente e o novo sócio, o capaz engenheiro Patrick Head, a organização evoluiu exponencialmente.

Controlava tudo só com os dedos

Estive na sede da Williams em Grove duas vezes. Na segunda, me levaram até a sala de Frank Williams. Ele permanecia de pé, preso a uma estrutura metálica, com o corpo ligeiramente inclinado para trás, e bem a sua frente havia um teclado, sobre o qual mantinha os dois braços apoiados.

Ele próprio me explicou que com os dedos podia tocar teclas numéricas. Era o discador do seu telefone. Passava a maior parte do tempo dessa forma, em conversa com pessoas do seu interesse, no telefone.

De tempos em tempos, os diretores dos vários setores da complexa organização de uma escuderia de F1 pediam autorização para entrar e pedir orientação sobre o que fazer. Obviamente Frank Williams tinha o seu sócio para compartilhar as decisões mais importantes, Head.

Ah, esqueci de falar. Em uma das breves conversas com Frank Williams disse-me amar aviões e helicópteros. E que seu hobby era “não necessariamente voar com eles, mas comercializá-los”. Ganhava dinheiro também com isso. Chegou a ter vários.

Frank Williams – Foto: Reprodução Instagram

Você colocou na balança as muitas atividades de Frank Williams, apesar de, como descrevi, precisar de horas diárias para exercitar a respiração a fim de manter-se vivo e depender de ajudantes que o assistiam para realizar as tarefas mais elementares para um cidadão normal, como se alimentar ou cuidar da higiene no banheiro?

Começou a entender, agora, de onde vem esse meu apreço incondicional a esse grande homem? Um campeão na essência do vocábulo, da vida e de um esporte cujas exigências se estendem para bem além de ser apenas um bom administrador de empresas.

Frases de grande significado que ouvi do dirigente

Agora o que Frank Williams me declarou e considero de alta relevância para compor seu perfil. Em 1993, conversei com ele em Silverstone. O seu modelo FW15C-Renault, pilotado por Alain Prost, era, de longe, o carro mais rápido da F1 – sentei nele na coleção de Grove. Foi o último monoposto a dispor de todos os recursos eletrônicos possíveis para a época, como suspensão ativa, câmbio automático, controle de tração, freios ABS, acelerador eletrônico, dentre outros. A partir da temporada seguinte tudo isso foi proibido.

Reproduzo letra a letra algo que me chocou:

– O senhor começou no universo da velocidade como piloto, mas carreira bem-sucedida o senhor a construiu como dono e chefe de equipe. O que mais aprecia, ser piloto ou proprietário de um time? (Praticamente não esperou eu terminar a pergunta)

Piloto, óbvio. Por conta dessa minha paixão pela velocidade estou hoje em uma cadeira de rodas.

A declaração é reveladora. Não estamos sendo agressivos ao dizer que Frank Williams nutria uma frustração por sua carreira de piloto, no início dos anos 60, não ter decolado. Só lembrando, nasceu em 1942.

As duas frases a seguir remontam a 1993 também, creio que no GP de Portugal, pouco depois de Frank Williams assinar com Ayrton Senna para ser seu piloto a partir de 1994.

– É a nossa resposta ao desafio de nos mantermos na frente. Do outro lado estamos vendo surgir um certo Michael Schumacher.

Frank Williams sabia que o piloto certo para enfrentar e vencer Schumacher era Senna e não o seu principal piloto naquele ano, Alain Prost.

Sobre Senna, ainda:

– Eu o convidei para pilotar o meu carro, em 1983, quando ainda estava na F3. Infelizmente isso aconteceu depois de eu já ter assinado com Keke Rosberg e Jacques Laffite (para 1984). Poderia ter vindo para o meu time bem antes.

Frank Williams e Ayrton Senna – Foto: Reprodução redes sociais

Mais de Frank Williams sobre Senna:

– Ele me dizia que sonhava competir por nossa equipe. E eu lhe dizia que sonhava em tê-lo como piloto. Em 1992, a influência da nossa parceira Renault era grande. Eles quiseram Prost e Prost exigiu que Senna não fosse seu companheiro em 1993. Aceitei a cláusula do veto, mas por apenas um ano. Na metade de 1993 disse a Alain que eu negociava com Senna para ser nosso piloto em 1994. Acredito que isso levou Alain a deixar as pistas.

Marcou sua vida

– Mais do que Frank Williams me disse sobre Senna:

– Vou carregar para o resto da minha vida o fardo de que ele morreu no meu carro.

Até hoje todos os carros construídos pela Williams têm em algum ponto da carenagem o “S” da marca Senna.

Frank Williams sempre valorizou mais o mundial de pilotos do que o de construtores. Por que, senhor Williams:

– Os pilotos que estavam comigo no começo dos anos 70 não estão mais aqui. Mas meu time segue na F1 e hoje é um dos que lutam pelo título. Responda, por favor: quem é mais importante, alguém que já passou ou nós que estávamos, estamos e pretendemos aqui seguir por muito tempo?

Ano de 2013, depois de a Williams disputar, até então, a pior temporada da sua história, ao terminar o mundial de construtores na nona e penúltima colocação, com 5 pontos, diante de 596 da Red Bull, a campeã. Quais os motivos dessa tamanha queda, senhor Williams:

– Uma combinação deles. O principal foi a perda da BMW como nossa parceira. Estivemos juntos de 2000 a 2005. Se você observar verá que estávamos sempre lutando lá na frente. Na F1 de hoje se você não está associado a uma montadora não há como fazer sucesso.

Frank Williams e Ayrton Senna em 1983 – Reprodução Twitter

Grande arrependimento

Pergunto na mesma conversa qual seu maior erro como chefe de equipe?

– Não ter aceito a proposta de Adrian (o genial engenheiro Adrian Newey). Em 1996 ele procurou a mim e a Patrick (Patrick Head) para dizer que tinha convites e pensava em sair. Mas permaneceria conosco se nós lhe repassássemos uma parte da sociedade. Nós descartamos de cara essa possibilidade. Foi um grave erro do qual me arrependo até hoje. Depois disso nunca mais tivemos um grupo técnico capaz de produzir um carro campeão do mundo e, como falei, quando estávamos associados a BMW dispúnhamos de todos os recursos para fazê-lo.

Adrian Newey foi para a McLaren, mas antes deixou o projeto de 1997 pronto, último título mundial da Williams, de pilotos, com Jacques Villeneuve, e construtores.

Sobre Rubens Barrichello, seu piloto em 2010 e 2011.

– Eu não sei como ele ainda não foi campeão do mundo. Rubens reúne todas as qualidades dos campeões do mundo.

Já não no melhor do seu juízo

Agora duas experiências tristes com Frank Williams, já não mais na gestão da equipe. Esta foi, creio, em 2015, durante um desses momentos em que pedia para lhe fazer perguntas. Desejava saber sua opinião sobre Nico Rosberg, seu piloto por quatro anos, de 2006 a 2009. Naquele ano estava perdendo feio a disputa com seu companheiro de Mercedes, Lewis Hamilton.

Durante a conversa, por duas vezes ele interrompeu minha pergunta, em momentos diversos, para falar a mesma coisa:

– Você conhece Fernando Alonso?

Disse que sim, ia a suas entrevistas com frequência desde os tempos de Renault.

– Quando você o encontrar, pode por favor dizer que eu lhe envio uma saudação?

Percebi, com imensa dor, que Frank Williams já não estava falando sempre coisa com coisa. Essa confusão mental o levou a tomar a decisão que selou o fim de uma das melhores equipes da história da F1, ao menos sob a condução da família Williams.

– Por que o senhor colocou sua filha (Claire Williams) para ser a número 1 da organização, com plenos poderes, se ela não teve vivência na F1, não sentiu de perto seus imensos desafios?

– Porque a considero a pessoa ideal para levar nossa equipe a ser campeã novamente.

Não havia cidadão na F1 que não estabelecesse uma relação direta entre a ascensão de Claire Williams a líder da equipe, em março de 2013, e sua queda livre nos últimos anos. Até então havia trabalhado somente na área de comunicação da Williams.

Veja a classificação da temporada 2021 da F1

Um amigo, ex-diretor da Williams, hoje na FOM, contou-me que eles evitavam levar as questões mais relevantes para Claire avaliar por saberem que suas decisões seriam desastrosas. Não tinha experiência alguma e por vezes não delegava responsabilidades.

Mas para o seu pai Claire representava a salvação do projeto que ele começou no começo dos anos 70, disputou até hoje 768 GPs, e por conta da imensa competência, determinação, resiliência e fibra do fundador venceu, além dos sete títulos de pilotos e nove de construtores, 114 vezes na F1, chegou em 313 ocasiões ao pódio e seus pilotos estabeleceram 128 pole positions.

Espero ter mostrado um Frank Williams não conhecido por todos.

Abraços.

A saúde das unidades motrizes poderá definir o campeão da F1. Veja como estão a Honda, de Max, e a Mercedes, de Hamilton

Olá, amigos.

A exemplo de vários outros campeonatos na rica história de 72 anos da F1, a emocionante edição deste ano, com a luta ponto a ponto entre Max Verstappen, da Red Bull-Honda, e Lewis Hamilton, Mercedes, pode também ser decidida em função da eficiência, confiabilidade da unidade motriz. Bem, até 2013 ela se chamava ainda motor. A introdução da tecnologia híbrida, bem mais complexa, avançada, compatível com a realidade do planeta, o transformou em unidade motriz.

Esse é exatamente o tema de nossa conversa, hoje, qual a situação das unidades motrizes, a Honda instalada no modelo RB16B de Max, e Mercedes, no W12 de Hamilton, já que elas podem garantir o título a um ou outro desses geniais pilotos, representantes de gerações distintas da competição. Hamilton completará 37 anos dia 7 de janeiro e Max fez 24 dia 30 de setembro.

Veja a classificação da F1

Têm importância determinante porque se a Red Bull precisar substituir a unidade motriz Honda de Max ou a Mercedes, a de Hamilton, os dois serão punidos com a perda de colocações no grid, elevando a dificuldade de vencer a disputa, dada a extrema competitividade de ambos e de seus times.

Neste fim de semana não haverá corrida de F1. A definição do mundial ficará para as duas etapas finais, dia 5 no ultraveloz Circuito de Jeddah, com 6.174 metros de extensão, 27 curvas, estreia da Arábia Saudita do calendário, e dia 12, no Circuito Yas Marina, em Abu Dhabi, de traçado reconstruído. Os 5.554 metros, 21 curvas, originais deram espaço a uma pista onde provavelmente as ultrapassagens serão menos difíceis, com 5.281 metros, 16 curvas.

Reagir rápido, o desafio

São os eventos que vão apontar o campeão do mundo de uma das temporadas mais disputadas e sensacionais da F1 e pilotos e equipes não têm maiores referências práticas de seus traçados, tipo de asfalto, zebras etc.

Max Verstappen – Foto: F1

A capacidade de pilotos e engenheiros rapidamente adaptarem seus carros para as características das duas pistas, bem como melhor explorar os pneus Pirelli, tarefa nem sempre fácil, terá grande peso na performance geral do conjunto, principalmente nas corridas, de 50 voltas no caso de Jeddah e 58 no novo Yas Marina.

A Pirelli embarcou para a Arábia Saudita os pneus C2, C3 e C4, médios da gama, e para Abu Dhabi os C3, C4 e C5, os mais macios.

Você sabe, depois de 20 provas, Max lidera a classificação com 351,5 pontos diante de 343,5 de Hamilton, sendo que Max tem nove vitórias, diante de sete do adversário, primeiro critério de desempate caso conquistem o mesmo número de pontos. Em número de segundos lugares, critério seguinte para desempatar a disputa, os dois estão iguais, sete. Já em terceiros lugares, Hamilton tem um, na Bélgica, enquanto Max, nenhum.

Formadas por sete elementos

Preciso resgatar algo que já escrevi, decifrar o que seja uma unidade motriz na F1, essencial para compreender o estágio das unidades de Max e Hamilton.

A FIA a divide em sete elementos: o motor de combustão interna, convencional, de 1,6 litro, 6 cilindros em V, equipado com um conjunto turbo-compressor. Esse motor é chamado de ICE. E o conjunto turbina-compressor, de TC. Aí já temos dois elementos.

Integrado a esse motor temos dois sistemas de recuperação de energia, um cinético, o MGU-K, e um térmico, MGU-H. Os dois fornecem energia elétrica a um conjunto de baterias, denominado ES, controlados por uma central eletrônica de gerenciamento (CE). Este ano a FIA introduziu mais um controle nas unidades motrizes, o sétimo, relativo ao escapamento (EX).

O regulamento permite que cada piloto disponha para disputar o campeonato, da primeira à última etapa, no caso de um calendário com 22 corridas, de três ICE, TC, MGU-K, MGU-H, dois ES, CE, e oito EX.

Max está no quarto ICE, TC, MGU-K e MGU-H. No terceiro, ES e CE e no sétimo EX. Esse elemento além do estipulado pela regra, o quarto ICE, TC, MGU-K e MGU-H e o terceiro ES e CE foram instalados no seu carro no GP da Rússia. Foi punido e largou em último, para terminar em segundo.

Com eles Max participou do treino livre do sábado e disputou as sessões de classificação e as corridas dos GPs da Rússia, Turquia, dos Estados Unidos, do México, de São Paulo e do Catar.

Mais novas ficam para o sábado e domingo

Nos dois treinos livres das sextas-feiras, de uma hora cada, onde o piloto percorre, em média, 140 quilômetros em cada um, as equipes utilizam na maioria dos casos uma unidade motriz já próxima do fim da vida útil, a fim de preservar as de menor quilometragem para a sessão que define o grid e a corrida.

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As instaladas no sábado, portanto, completam cerca de 140 quilômetros no terceiro treino livre, pela manhã, algo como 100 quilômetros no total das três partes da classificação, Q1, Q2 e Q3, e no domingo os 310 quilômetros, em média, da corrida. Entre sábado e domingo as unidades motrizes mais recentes percorrem, portanto, aproximadamente 550 quilômetros (140+100+310). São com esses valores que as equipes trabalham.

Vantagens e desvantagens de um e outro piloto

É possível nos aproximarmos da quilometragem da unidade motriz de Max, hoje. Se multiplicarmos 550 pelos seis GPs em que está no seu RB16B-Honda, chegamos a 3.300 quilômetros. Refiro-me aos sete elementos, pois todos foram substituídos em Sochi, 15º do ano, dia 26 de setembro.

Lewis Hamilton – Foto: F1

Cada um deles, acima do permitido, cobra cinco posições no grid. Mas se chegar a 15, pela troca de três elementos, por exemplo, o piloto já deve largar na última fila.

Informação pertinente: como são três unidades motrizes para as 22 etapas do campeonato, cada uma deve suportar, em média, 7 GPs. Como no total, entre treinos livres, classificação e corrida são algo como 800 quilômetros por fim de semana de competição, cada uma foi projetada para completar 5.600 quilômetros (800 x 7), na realidade até um pouco mais.

E Hamilton, a quantas anda sua unidade motriz? Ele tem no seu W12 o quinto ICE, terceiro TC, MGU-H e MGU-K. Segundo ES e CE e quarto EX. No GP da Holanda, 13º, dia 5 de setembro, a unidade motriz que estava no seu carro quebrou com apenas 5 minutos de treino na sessão livre de sexta-feira à tarde. Os sete elementos foram trocados. Colocou a terceira unidade motriz, assim não houve punição.

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Na sequência, Hamilton teve outra substituição do motor de combustão interna (ICE), desta vez no Circuito Istambul Park, na Turquia, 16º, dia 10 de outubro. Mas a Mercedes se limitou a trocar apenas esse dos sete elementos. Perdeu cinco posições no grid. Na corrida de São Paulo, a equipe adotou o mesmo procedimento, novo ICE, e teve cinco posições adicionadas à posição de chegada na sprint race, no sábado. Recebeu a bandeirada em quinto e largou no dia seguinte em décimo.

No evento seguinte, em Losail, domingo, no Catar, Hamilton voltou a usar o motor de combustão interna (ICE) posto no seu carro na Turquia. Toto Wolff, sócio e diretor do time da Mercedes, disse que o ICE utilizado em Interlagos, e que literalmente assustou Max e os profissionais da Red Bull, por sua resposta de potência, voltará para o carro de Hamilton no próximo GP, na Arábia Saudita, onde o traçado sugere que a unidade motriz seja o componente mais importante no desempenho geral do carro.

Elementos com maior quilometragem

Importante: vocês viram, pelo descrito, que com exceção do ICE, Hamilton tem no seu W12 todos os demais elementos instalados ainda no GP da Holanda? O piloto inglês, vencedor das duas últimas etapas, em São Paulo e no Catar, tem seis elementos com nada menos de oito GPs? Sempre lembrando que eles se limitam aos cerca de 550 quilômetros dos treinos do sábado e domingo.

Podemos nos aproximar da quilometragem desses elementos do carro de Hamilton. Como são oito GPs, então 4.400 quilômetros (550 x 8). Lembra a quilometragem dos elementos de Max, inclusive o ICE? Menos, 3.300 quilômetros.

Ponto a favor do piloto inglês

Mas enquanto o seu ICE remonta ao GP da Rússia e já tem esses 3.300 quilômetros, o de Hamilton foi utilizado apenas no sábado e domingo do GP de São Paulo, portanto com somente 550 quilômetros. É uma diferença considerável. Vantagem no ICE para Hamilton e nos demais seis elementos da unidade motriz para Max.

A pouca quilometragem do ICE de Hamilton em Interlagos ajuda a explicar a grande distinção de performance entre a sua unidade motriz e a de Max. Não foi só o acerto aerodinâmico menos carregado definido por Hamilton e seu engenheiro, Peter Bonnington, que lhe permitiu chegar na freada do S do Senna e no fim da Reta Oposta com maior velocidade dos adversários. Sua nova unidade motriz desenvolvia, sim, mais cavalos que a anterior.

No caso da Mercedes, a cada GP a unidade motriz vai perdendo capacidade de desenvolver potência, mais do que a Honda na Red Bull. Palavras de Wolff, pela Mercedes, e Helmut Marko, o homem forte da Red Bull, para mim, no GP de São Paulo.

Congelamento relativo

Espera aí, você pode estar pensando, e com razão: o desenvolvimento das unidades motrizes não está congelado na F1? Como pode a Mercedes disponibilizar uma unidade motriz tão mais eficiente que a anterior? Como pôde a Honda, também, levar para o GP da França, sétimo do ano, dia 20 de junho, uma versão que garantiu a Max mais potência?

Esse congelamento não é absoluto. As fabricantes de unidades motrizes na F1, Mercedes, Honda, Renault e Ferrari, homologaram, em março, uma versão de unidade motriz, os sete elementos que a compõem. O regulamento autoriza uma nova versão ao longo do ano, cuja introdução fica a critério de cada equipe.

Mais: não exige que a mudança seja tudo de uma vez. Você pode lançar uma nova versão do ICE em um GP, do MGU-K em outro, do MGU-H em um terceiro, fica a seu critério. A Ferrari, por exemplo, levou para Istambul um novo sistema de recuperação de energia, com diferentes MGU-K e MGU-H, apenas. Os dois juntos formam o ERS. E a unidade motriz deu um salto de performance.

Além de autorizar novos componentes, a regra permite aos fabricantes rever seus projetos. Toda mudança planejada deve previamente ser encaminhada a FIA. Os comissários a analisam e respondem se está autorizada ou não.

Essas revisões devem se limitar a garantir maior resistência, confiabilidade ou reduzir os custos de produção da unidade motriz. Se os comissários entenderem que as alterações podem implicar melhora de desempenho não a autorizam. É aí que mora o problema.

A questão é um tanto subjetiva. Você se lembra de Wolff reclamar da Honda, em seguida ao evento em Paul Ricard, na França, vencido por Max, ao ultrapassar Hamilton na penúltima volta, após estratégia mais arriscada, parar duas vezes? O avanço da Honda pôde ser observado, ainda, no terceiro lugar do mexicano Sérgio Perez, companheiro de Max. Hamilton foi segundo.

Opinião

Em conversa com Doctor Marko, em Interlagos, fiquei com a impressão de que a equipe irá substituir o ICE de Max no Circuito de Jeddah. Vão procurar entender a diferença que Hamilton irá lhes impor na sexta-feira, mesmo com a unidade motriz ainda antiga, para então decidir.

Mas já ficou claro que se Max for com o que tem e Hamilton com o ICE de Interlagos, nas verdadeiramente longas retas do Circuito de Jeddah não haverá como competir com a Mercedes. Um novo ICE fará Max perder cinco posições no grid, mas diante da provável facilidade de ultrapassagem da pista árabe não será tão difícil para Max encostar nos líderes. As coisas fluindo como manda a teoria, Hamilton em primeiro e seu parceiro, Valtteri Bottas, em segundo.

Isso tudo no mundo de Walt Disney, bem entendido, hein? Quero dizer sem inconvenientes de nenhuma natureza para a Mercedes e Red Bull-Honda. E vimos pelas características do Circuito de Jeddah que podemos esperar um fim de semana tumultuado, mais um motivo para o grupo técnico que trabalha com Max, liderado pelo italiano Gianpiero Lambiase, ordenar a instalação de novo ICE no seu carro.

Na última prova, no Circuito de Losail, Max largou em sétimo e na quinta volta já estava em segundo, colocação que terminou, com Hamilton na frente.

Acredito termos, agora, uma visão geral dessa batalha entre as unidades motrizes de Max e Hamilton para os dois eventos de encerramento da temporada. Vamos ver como as duplas Max-Lambiase e Hamilton Bonnington irão reagir quanto à capital estratégia das unidades motrizes.

Dois mundiais decididos pelos propulsores

Ah, conto duas experiências vividas de perto na F1. Em uma delas o motor praticamente definiu o título e na outra, a unidade motriz. Estávamos em Suzuka, em 2006, último ano de Michael Schumacher na F1. Competia pela Ferrari, com quem conquistou cinco mundiais seguidos, de 2000 a 2004. Ele voltaria a F1 pela Mercedes, de 2010 a 2012, mas sem o mesmo desempenho.

O adversário de Schumacher na luta pelo título, em 2006, era Fernando Alonso, da Renault. Os dois chegaram ao GP do Japão, penúltimo do calendário, com o mesmo número de pontos, 116. Restava, depois, somente o GP do Brasil. Schumacher era o líder da corrida, na 36ª volta de um total de 56, quando o seu V-8 simplesmente quebrou, levando-o a abandonar.

Sabe qual havia sido a última vez que o motor impediu Schumacher de receber a bandeirada? No GP da França de 2000. Isso mesmo, seis anos antes. Competiu impressionantes 111 GPs sem um único problema de motor.

Alonso venceu o GP do Japão e em Interlagos, precisando de um ponto apenas, terminou em segundo e tornou-se campeão do mundo pela primeira vez.

Piloto da Mercedes já foi vítima

A outra ocasião em que fui testemunha de tamanha decepção envolveu Hamilton, no GP da Malásia de 2016. Ele se apresentou para a prova em segundo no mundial, com 265 pontos diante de 273 do companheiro de Mercedes, Nico Rosberg.

Hamilton liderava a corrida, na 41ª volta de um total de 56. Sem nenhum aviso, ouvimos na sala de imprensa do Circuito de Sepang o piloto exclamar no rádio: “Oh no…” A unidade motriz o deixou na mão, única vez no ano.

Rosberg foi acertado por Sebastian Vettel, da Ferrari, logo depois da largada, perdendo várias posições. Era a chance de Hamilton reassumir a liderança do campeonato. O finlandês chegou ainda em terceiro com o abandono de Hamilton. Isso o permitiu sair da Malásia com 23 pontos de vantagem para o parceiro de Mercedes, decisivos para lhe dar o título.

Rosberg anunciaria em seguida à vitória no campeonato, com o segundo lugar no GP de Abu Dhabi, último do ano, vencido por Hamilton, o fim da carreira na F1.

Abraços, amigos.

Nem todos se deram conta, mas Max tem um match point no próximo GP, na Arábia Saudita

Olá, amigos.

O que mais me impressionou na corrida deste domingo, na estreia do GP do Catar no calendário da F1, não foi a vitória de Lewis Hamilton, da Mercedes, mas como a obteve. O piloto inglês manteve o primeiro lugar na largada, pois era o pole position, e em nenhum instante das 57 voltas da prova Max Verstappen, da Red Bull-Honda, chegou sequer perto. Fiquei com a nítida impressão de que Hamilton correu com reservas.

A diferença entre ambos na classificação, agora, ficou em somente 8 pontos, 351,5 a 343,5, restando os GPs da Arábia Saudita, dia 5, no preocupante Circuito de Jeddah, explico a seguir, e de Abu Dhabi, no Circuito Yas Marina, de traçado modificado, 12.

Veja a classificação da F1

Mas apesar de Hamilton vir de duas convincentes vitórias nas duas últimas etapas do campeonato, poucos se deram conta de que Max tem chance matemática de ser campeão já na próxima corrida do mundial, algo não possível ao inglês, ao menos em Jeddah. No fim do texto apresento as combinações de resultados que garantem a esse notável piloto de 24 anos a conquista do título em menos de duas semanas.

A resignação de Max quanto ao melhor ritmo do modelo W12 de Hamilton em relação ao seu RB16B-Honda, no Circuito de Losail, ficou evidente na 28ª volta, metade da competição, quando não escondeu o que sentia ao compreender não ser possível reduzir a diferença que os separavam naquele instante, 6 segundos e 980 milésimos: “Aparentemente vamos chegar em segundo, não há muito o que fazer”, afirmou o holandês ao time, no rádio.

Max largou em sétimo, apesar do segundo tempo na definição do grid, no sábado, por não diminuir a velocidade sob duas bandeiras amarelas agitadas em razão de o carro de Pierre Gasly, da Alpha Tauri-Honda, estar parado na pista no final do Q3.

Avançou rápido na classificação

Mas já na quinta volta Max assumiu o segundo lugar, depois de ultrapassar os cinco pilotos à sua frente no grid, Valtteri Bottas, Mercedes, sexto, também punido por não respeitar a bandeira amarela, Carlos Sainz Júnior, Ferrari, quinto, Lando Norris, McLaren-Mercedes, quarto, Fernando Alonso, Alpine, terceiro, e Gasly, segundo.

Completou a quinta volta 3s791 atrás de Hamilton, sempre líder. Quando muitos pensaram que talvez pudesse se aproximar do concorrente ao título – dentre eles, eu – eis que o piloto da Mercedes começou a ampliar a diferença entre ambos. Na décima volta, por exemplo, já era de 5s536. Na 16ª, uma antes do primeiro pit stop de Max, 8s258. Na 43ª uma depois da segunda parada de Hamilton, sendo que Max fez o segundo pit stop na passagem anterior, a vantagem do inglês era de 8s447.

O traçado do Circuito de Losail sugeria não provocar uma diferença grande de performance entre Mercedes e Red Bull-Honda, com seus 5.380 metros, 16 curvas, sendo o último setor dotado de curvas longas e rápidas, cenário ideal para a maior eficiência aerodinâmica média do carro da equipe austríaca. Não foi definitivamente o que vimos.

E nem utilizou todos os recursos

E o que talvez esteja preocupando ainda mais Max, seu engenheiro, Gianpiero Lambiase, e Toyoharu Tanabe, diretor técnico da Honda, é que Hamilton não disputou o GP do Catar com a temida unidade motriz usada pela primeira vez em Interlagos.

Os seus cavalos a mais tiveram boa responsabilidade na impressionante velocidade final de Hamilton nas retas, uma das razões de as muitas ultrapassagens realizadas na sprint race do sábado e depois na prova principal, no domingo, terem sido na freada do S do Senna, após longo trecho de 1.100 metros de aceleração plena. Sem que com isso, por favor, Hamilton não tenha todos os méritos pelas façanhas de Interlagos.

Lembra? Largou em último no sábado, punido pelo DRS abrir 0,2 mm mais do autorizado, e chegou em quinto, numa corrida de somente meia hora, 29 voltas. E ao longo das 71 volta da competição principal, no domingo, saiu do décimo lugar no grid para ultrapassar Max, então líder na 59ª volta, e vencer espetacularmente o GP de São Paulo.

Pista árabe preocupa

Circuito de Jeddah, na Arábia Saudita – Foto: F1

Mencionei haver apreensão quanto ao Circuito de Jeddah. Primeiro pelo andamento das obras. As informações que obtive através da troca de mensagens com um amigo da Formula One Management (FOM) são de que o concluído será suficiente para a realização da prova.

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Mas o que mais preocupa é a característica do traçado, ultraveloz, e, claro, sua segurança. Isso porque, como já escrevi em outro texto, a média horária sinalizada nas simulações nessa pista de 6.174 metros, 27 curvas, é de 252 km/h, só perde para Monza. A pole de Bottas no último GP da Itália, com 1min19s555, teve a média de 262,1 km/h.

Hora da verdade para as unidades motrizes

Entre a curva 13 e a 27 do Circuito de Jeddah, uma antes da linha de chegada, são cerca de 3 mil metros de pé no fundo. Os pilotos vão reduzir a velocidade, pouco e não muito, somente nas curvas 16 e 22. Haja unidade motriz para suportar tamanha solicitação! É a prova de fogo para essas verdadeiras obras primas da engenharia automotiva.

Atente: a vida útil da unidade motriz da maioria dos pilotos está perto do fim e tem de encarar, agora, esse megadesafio. O GP da Arábia Saudita será o 21º do calendário.

Pessoalmente acredito que mais de uma equipe terá piloto punido no grid por recorrer a uma nova unidade motriz, além do limite de três por piloto para todo o campeonato.

Vi fotos do circuito e ratifico a primeira impressão: é perigoso. As velocidades são elevadíssimas, perto dos 350 km/h, e as áreas de escape são pequenas ou quase inexistentes em alguns pontos, em especial nas retas. No caso de choque do piloto contra o muro a tendência é de o carro voltar para o meio da pista, onde outros se deslocam nas velocidades mencionadas.

O problema é que estamos falando de uma quase reta de três quilômetros. Lindo, legal, diferente, necessário, mas com áreas de escape dos dois lados, não como vimos nas fotos. Torçamos para tudo correr bem.

A matemática do título

No começo falei que fiz os cálculos da matemática do título. O estudo trabalha com números, nada mais, não considera, por exemplo, que a vantagem técnica neste momento sugere estar com a Mercedes, já que Hamilton vem de ser primeiro em São Paulo e no Catar e com ritmo melhor que o de Max.

Vamos às combinações de resultados que definem o vencedor da temporada dia 5 no Circuito de Jeddah.

Primeiro, apenas Max tem chances – pequenas, é verdade -de sacramentar a conquista do campeonato no próximo evento do calendário. Hamilton, não. Mesmo que vença, faça a melhor volta e Max não some ponto algum.

Mais: para Max ser campeão, precisa necessariamente terminar o GP da Arábia Saudita em primeiro ou segundo. Irá depender, a seguir, da colocação de Hamilton. Se Max for de terceiro para baixo a definição do campeonato se estende para a corrida final, mesmo que Hamilton não faça pontos. Você entenderá melhor a seguir.

Hipótese 1

Max será campeão no GP da Arábia Saudita se vencer, estabelecer a melhor volta da corrida e Hamilton receber a bandeirada no máximo na sexta colocação. Entenda:

O primeiro lugar e a melhor volta dariam 26 pontos a Max (25 + 1), que somados aos atuais 351,5 o levariam a 377,5. Se Hamilton terminar em sexto, ganha 8 pontos. Adicionados aos 343,5 de hoje atingiria 351,5. A diferença entre a pontuação de Max e a de Hamilton, nesta hipótese, seria de 26 pontos (377,5 – 351,5).

Espera aí, você pode pensar, Hamilton pode somar 26 pontos na última etapa, em Abu Dhabi, caso Max abandone, por exemplo, levando os dois pilotos a um empate no número de pontos, 377,5.

Importante: aí entrariam em jogo os critérios de desempate. O primeiro deles é o número de vitórias do piloto no campeonato. Hoje, depois de 20 etapas, Max tem 9 vitórias diante de 7 de Hamilton. Por esse critério, portanto, Max seria declarado campeão do mundo.

Hipótese 2

Max será campeão se vencer o GP da Arábia Saudita e não fizer a melhor volta desde que Hamilton se classifique no máximo em sétimo, podendo ser com ou sem a melhor volta. Entenda:

A vitória daria 25 pontos a Max, levando-o a 376,5 (351,5 + 25). Se Hamilton terminar em sétimo, recebe 6 pontos. Se somados aos seus atuais 343,5 chegaria a 349,5.

A diferença para Max seria de 27 pontos (376,5 – 349,5). Um a mais do que o piloto da Mercedes tem como obter em Abu Dhabi.

Pódio do GP do Catar – Foto: F1

Se Hamilton terminar em sexto e ainda fizer a volta mais rápida, ganha mais um ponto e atinge 350,5 (343,5 + 6 + 1). Neste caso a diferença para Max que venceu, mas não fez a melhor volta, iria para 26 pontos (376,5 – 350,5).

Vale a mesma explicação da hipótese 1: Max fica com o título porque Hamilton poderia no máximo igualar seu número de pontos no GP de encerramento do campeonato, uma semana mais tarde, e perderia por ter menos vitórias.

Hipótese 3

Max pode ainda ser campeão se chegar em segundo no GP da Arábia Saudita e estabelecer a melhor volta, desde que Hamilton não vá além do décimo lugar. Max somaria 18 pontos da segunda colocação e 1 da melhor volta, 19 no total. Ficaria com 370,5 (351,5+18+1).

Já Hamilton com 1 ponto da décima colocação chegaria a 344,5 (343,5 + 1). A diferença entre os dois pilotos seria de 26 pontos (370,5 – 344,5).

Se Max for segundo e não fizer a melhor volta, Hamilton não pode marcar pontos. O holandês levaria os 18 pontos do segundo lugar para ficar com 369,5 (351,5 + 18). Hamilton já tem 343,5 e não somaria nada na Arábia Saudita, por, digamos, abandonar a prova.

A diferença de Max para Hamilton seria de 26 pontos (369,5 – 343,5).

Citei que se Max receber a bandeirada em qualquer outra posição que não seja o primeiro ou o segundo lugar não há como matematicamente o título ser decidido em Jeddah. Veja: se Max for terceiro, soma 15 pontos, e ainda registrar a volta mais rápida, recebe mais 1 ponto. Seu total passaria para 367,5 (351,5+15+1).

Hamilton já tem 343,5. Se não somasse ponto algum, a diferença para Max seria de 24 pontos (367,5 – 343,5), ou dois a menos do possível ainda de o piloto inglês obter em Abu Dhabi.

Já aconteceu, este ano, alguma combinação de resultados como as necessárias, agora, para Max ser campeão? Sim, uma vez, no GP de Mônaco, com todas as suas particularidades. Max venceu e Hamilton não foi além do sétimo lugar, apesar de ter feito a melhor volta. Hamilton e seu engenheiro, Peter Bonnington, se perderam no acerto do carro, conforme assumiram depois. Mas Mônaco é Mônaco, sabemos.

Opinião

Para Max celebrar seu primeiro título mundial no GP da Arábia Saudita será preciso ocorrer alguma inconveniência com Hamilton, como uma pane no equipamento ou mesmo envolver-se em um acidente. Em condições normais, é bem pouco provável Hamilton ficar distante do pódio, por exemplo, se levarmos em conta o seu histórico no ano. Venceu sete vezes, foi segundo também em sete ocasiões e uma em terceiro.

Verstappen e Hamilton – Foto: F1

A velocidade do modelo W12 da Mercedes em Interlagos e no Circuito de Losail nos dois últimos domingos, associada às características do traçado de Jeddah, alta velocidade, nos leva a crer que Hamilton se apresenta para o GP da Arábia Saudita em uma condição de vantagem técnica na luta com Max.

A lógica sugere que há mais possibilidades de Hamilton reduzir a diferença de oito pontos existente hoje entre ambos do que Max conquistar o título. Mas, como sempre escrevo, a lógica da F1 é exatamente a ausência de lógica.

Dessa forma, tudo mesmo pode acontecer ao longo das absolutamente imprevisíveis 50 voltas do GP da Arábia Saudita, diante da singularidade da competição e do estágio de desgaste da maioria das unidades motrizes instaladas nos carros.

Abraços, amigos.

Marko: “O novo motor Mercedes no carro de Hamilton assusta a Red Bull-Honda. Estudamos o que fazer”

O homem-forte da Red Bull abriu o jogo nesta entrevista exclusiva. Fala dessa inesperada vantagem da Mercedes, no final do campeonato, e não deixa de criticar duramente Hamilton pelo acidente com Max, em Silverstone.

Olá, amigos.

Ele tem um único olho, o direito. O esquerdo perdeu quando ainda era piloto de F1, no GP da França de 1972, isso mesmo há quase meio século, atingido por uma pedra que perfurou a viseira. Colocou uma prótese de vidro, mantida até hoje. Mas esse olho direito é capaz de enxergar longe, especializado em detectar jovens talentosos pilotos potencialmente capazes de realizar memorável carreira na F1.

Doctor Helmut Marko, 78 anos, é o homem-forte da equipe Red Bull e líder do programa de formação de meninos aspirantes a fazer sucesso no automobilismo. Do seu trabalho surgiram: Sebastian Vettel, quatro vezes campeão do mundo pela equipe Red Bull, de 2010 a 2013, Max Verstappen, na luta pelo título, este ano, Daniel Ricciardo, Pierre Gasly, todos vencedores de GPs, dentre outros.

Famoso por ser uma espécie de sargento rigoroso desses jovens nos autódromos e depois das corridas, no telefone, Marko é também bastante ativo na gestão do time de F1, participa das mais importantes decisões do grupo.

É o braço direito do sócio majoritário da empresa produtora do energético Red Bull, o austríaco Dietrich Mateschitz, cuja política é investir cerca de 35% do faturamento de US$ 2,5 bilhões em marketing esportivo, a grande maioria em esportes radicais.

Doctor Marko está hoje no Circuito Losail, no Catar, acompanhando a árdua luta entre seu pupilo, Max Verstappen, e Lewis Hamilton, da Mercedes, pelo título mundial. Max está 14 pontos na frente de Hamilton, depois de 19 etapas já realizadas, 332,5 a 318,5. Cada ponto vale muito! Segue de perto, ainda, a disputa pela vitória no campeonato de construtores com a Mercedes. Os alemães lideram com 521,5 pontos diante de 510,5 da Red Bull-Honda.

Veja a classificação e o calendário da F1

Conversei com Doctor Marko no sábado do GP de São Paulo, há uma semana. Foi uma longa conversa, por vezes informal, como de costume. Você tem aqui nessa entrevista o que ele pensa da luta com Hamilton, critica o piloto inglês, não esconde a preocupação com a potência da unidade motriz Mercedes usada pela primeira vez em Interlagos e diz, mesmo assim, confiar na conquista do título.

Se você gosta de F1 e acompanha seus acontecimentos, considero essa entrevista apropriada para entender muita coisa. Aproveite. Abraços, amigos.

Marko com (da esq. p/ dir.) Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat (Red Bull), Max Verstappen e Carlos Sainz (Toro Rosso), em foto de 2016 – Foto: F1

Livio Oricchio (LO) – Dr. Marko, o senhor esperava, no começo do ano, que fosse chegar a 19ª etapa do campeonato com seu piloto, Max Verstappen, na liderança do mundial de pilotos com 9 vitórias, diante de 5 de Lewis Hamilton (Mercedes), 9 pole positions ao passo que o adversário soma 3? Mais: estar no mundial de construtores tão próximo da Mercedes, podendo sua equipe também ser campeã? (Hamilton tem na realidade 6 vitórias, este ano, com a de Interlagos. A entrevista foi realizada antes da sprint race.)

Helmut Marko (HM) – Sim. Vimos nos testes de inverno que dispúnhamos de um carro muito competitivo. Na realidade, isso vem do fim do ano passado, quando vencemos a última corrida por sermos mais rápido que a Mercedes e o regulamento não mudou. Começamos a temporada muito confiantes. A Honda também fez um grande avanço na sua unidade motriz. Definitivamente sabíamos poder lutar pelo título, como estamos fazendo.

LO – Na realidade, tivemos uma revisão das regras, as restrições aerodinâmicas na parte traseira dos carros, como a redução do assoalho e das paredes laterais do difusor. Os próprios engenheiros dizem até hoje que o impacto da mudança foi bem maior do imaginado a princípio.

HM – Se você está se referindo à impressão geral de que nós nos demos bem por causa de usar um grau elevado de rake, eu digo que não há como provar que isso nos favoreceu. O que é certo é que dispúnhamos de um carro muito rápido no fim de 2020 e a Honda nos deu uma grande unidade motriz este ano. (Rake é o grau de inclinação do carro no sentido longitudinal. O modelo RB16B-Honda da Red Bull adota elevado grau de rake, ou seja, sua frente é bem mais rebaixada que a traseira. Para os demais carros essa disposição do chassi não gera a eficiência do monoposto de Max e seu parceiro, o mexicano Sérgio Perez, concebido pelo grupo liderado pelo genial projetista Adrian Newey. A maioria na F1 acredita que as supostas pequenas alterações do regulamento ajudaram, involuntariamente, o carro da Red Bull ganhar performance.)

LO – As poles de Hamilton e Valtteri Bottas foram, em geral, obtidas com tempos melhores que os de 2020. Mas as de Max com uma diferença ainda maior para suas marcas no ano passado. A Red Bull-Honda avançou mais que a Mercedes nesta temporada?

HM – Sim, nós demos um grande passo para a frente. Sem dúvida surpreendemos a Mercedes. Mas eles estão na luta pelo título, têm uma grande equipe e um piloto supercompetitivo. É por isso que essa disputa no meu entendimento vai até a última etapa do calendário (GP de Abu Dhabi, dia 12 de dezembro, no novo traçado do Circuito Yas Marina).

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LO – Max tem demonstrado este ano ser um piloto absolutamente excepcional. Veloz, como sempre, mas muito mais maduro, capaz de administrar os resultados nas corridas, um verdadeiro campeão do mundo em potencial. Quando o senhor o convidou para a F1, em 2014, depois das seis vitórias seguidas na F3 europeia, três em Spa-Francorchamps, na Bélgica, e três em Norisring, Alemanha, e tinha apenas 16 anos de idade, achou que ele seria o piloto que estamos vendo, capaz de vencer o duelo, por exemplo, com Hamilton?

HM – (Dr. Marko esboça aquele sorriso de quem apreciou a pergunta.) Eu esperava, sim, que Max fosse tão competente na F1. Mas não por causa das seis vitórias seguidas. Acompanhei suas corridas em Norisring. Fiquei muito impressionado. Como você lembrou, vinha do kart, tinha 16 anos. Em Norisring as corridas foram disputadas com pista seca, molhada, seca, e Max era um a dois segundos mais rápido que todos os demais em uma pista bem curta (circuito de rua, com apenas 2.300 metros de extensão). Aquilo era para mim sinal de alguma coisa, tinha um talento de fato especial. No dia seguinte liguei para o seu pai e ofereci ao filho uma vaga de titular na então Toro Rosso, hoje Alpha Tauri, nosso outro time, em 2015. E eu estava certo, não acha? Na estreia na Red Bull, no ano seguinte, em Barcelona, venceu de forma incontestável, ao manter Kimi (Ferrari) atrás de si por 20 voltas, com um carro mais rápido, por saber administrar o uso dos pneus.

LO – O que mais o impressiona em Max?

HM – Sua maturidade comparada à idade (completou 24 anos dia 30 de setembro e já disputou 139 GPs, tem 19 vitórias, 57 pódios e 12 pole positions). Ele está incrivelmente tão à frente, é tão competitivo. Foi inclusive um problema no começo, sempre queria vencer, de qualquer maneira. Agora ele aprendeu a gerenciar sua força. Um bom exemplo é o que vimos este ano na Turquia. Max compreendeu que não havia como tentar lutar com Valtteri e trouxe para casa o máximo possível, o segundo lugar. Dois anos atrás ele iria para cima de Valtteri de qualquer jeito até rodar e talvez jogar tudo fora. Ele é um menino, ainda, muito jovem, e já tem essa visão, sem perder a gana de sempre querer vencer. Outro exemplo: agora, no México, estava pilotando ao mesmo tempo em que discutia conosco, no rádio, qual a melhor estratégia a ser adotada. Com muita coerência disse o que deveríamos fazer. Essa não é sua função, mas pilotava e raciocinava ao mesmo tempo. Sua estratégia o levou à vitória. Ficamos impressionados.

LO – É fácil trabalhar com Max?

HM – Basicamente, sim. Às vezes, em especial no começo, ele era muito impaciente. Um menino com muita gana, vontade de fazer as coisas. Mas você tem de ser assim, querer que tudo se resolva rápido. Seu pai, também, no início, não interferia, mas dava muita opinião. Ok, entendíamos, afinal fez um trabalho fantástico com o filho no kart, ajudando-o a se formar como piloto. Mas na F1 as coisas funcionam de forma diferente, o amadurecimento de um piloto é mais lento, diferente do kart, o limite é muito mais alto. Demos início, então a um processo de distanciar a relação profissional entre Max e o pai, cortar o cordão umbilical. Não foi fácil, mas funcionou e hoje está ótima.

Helmut Marko e Max Verstappen em foto de 2017 – Foto: F1

LO – Como Jos Verstappen reagiu, aceitou deixar o filho seguir seu rumo, não dar palpite mais no seu trabalho?

HM – Obviamente tivemos de pedir para não vir a todas as corridas e ele não entendeu os benefícios para o filho de uma hora para outra, levou um tempo.

LO – Eu entrevistei Jos várias vezes, em especial no início de carreira, jovem, 22 anos, quando chegou a Benetton como companheiro de Michael Schumacher, em 1994. Era muito impulsivo, truculento.

HM – (Risos). Ainda é. (Jos disputou oito temporadas de F1, de 1994 a 2001, por oito equipes distintas. Largou 106 vezes e obteve dois pódios, sem vitórias ou pole positions.)

LO – O senhor está satisfeito com o trabalho de Sérgio Perez?

HM – Começou o campeonato muito bem, mas então passou a não produzir tanto. Foi quando compreendeu que seja lá o que fizesse não conseguia acompanhar o ritmo de Max. Começou a mudar o acerto do carro, tentar fazer coisas diferentes para ver se chegava em Max. Seu ritmo de corrida é realmente bom. O problema de Sérgio é a sessão de classificação, o que sempre foi uma dificuldade para ele, uma pena. Com sua velocidade na corrida se largasse mais à frente conquistaria muito mais. Está trabalhando duro para melhorar e vimos uma evolução. Desde a etapa de Monza Sérgio está bem mais próximo de Max na definição do grid, ajudando-o a obter três pódios seguidos (terceiro lugar nas provas da Turquia, dos Estados Unidos e do México. Ocupa a quarta colocação no campeonato, com 178 pontos, ou 154,5 a menos de Max, com uma vitória, cinco pódios.)

Marko, nos tempos de piloto, ao lado de Niki Lauda – Foto: F1

LO – Sérgio pediu à equipe para que o carro não reagisse tão diferente do que gosta?

HM – Em determinado momento, sim. Nós o ajudamos, claro. Mas se em uma equipe um dos pilotos consegue tirar velocidade do carro, então a equipe tem um carro competitivo. Cabe ao outro piloto descobrir como também tirar velocidade desse carro, se adaptar a suas características, com a nossa ajuda, como disse. É o seu desafio.

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LO – Dr. Marko, como está vendo a emocionante luta ponto a ponto entre Max e Hamilton pelas vitórias, pelo título?

HM – Acho que é um mundial épico da F1. Lutas soberbas, comparáveis apenas às entre Senna e Prost. Muito tensa, sim, mas em um nível muito, muito alto. Os dois pedem para não interferirmos. São dois pilotos com histórias diferentes, um já bem experiente, muitas vezes campeão, o outro bem jovem, cheio de vontade, defendendo duas organizações também completamente distintas, Red Bull e Mercedes, que atuam, como marca, em áreas diversas… ponha tudo isso em uma pista e você tem o espetáculo que tem agradado a todos.

LO – Qual a sua visão do acidente entre Hamilton e Max no GP da Grã-Bretanha (décima etapa, dia 18 de julho), em Silverstone? (Na primeira volta, Max liderava, com Hamilton bem próximo. Ao chegar na veloz Curva Copse, à direita, Max a iniciou com Hamilton por dentro. Os dois se tocaram a algo como 260 km/h. O holandês foi parar na barreira de pneus e levado a um hospital. Felizmente sem consequências maiores. Hamilton pôde seguir na corrida e venceu diante da sua torcida.)

HM – Um péssimo comportamento de Hamilton. Ele bateu em Max por trás, não aceitável, em especial em uma curva de tão elevada velocidade. Poderia ter evitado o acidente se tivesse tirado o pé, estava por dentro. Na velocidade em que vinha não faria nunca a curva, seguiria direto para a área de escape. Vimos com Leclerc, foi a mesma coisa. Se nós perdermos o campeonato será por isso, os acidentes em Silverstone e Budapeste. (No GP da Hungria, Bottas errou a freada da primeira curva, depois da largada, acertou Lando Norris, da McLaren, que por sua vez bateu no carro de Perez, levando-o a abandonar. Além disso, colidiu com o RB16B-Honda de Max, destruindo parte da lateral direita. Sem performance, o holandês não foi além do nono lugar. Hamilton ficou em segundo.)

LO – Qual a sua projeção para as três corridas finais, no Catar, na Arábia Saudita e em Abu Dhabi, considerando-se que serão três pistas onde ninguém ainda andou (os circuitos de Losail, no Catar, e Jeddah, Arábia Saudita, estreiam na F1, enquanto o Yas Marina, em Abu Dhabi, teve o traçado refeito.)

HM – O que primeiro quero dizer é que Hamilton passou a dispor de um foguete, não motor, aqui em Interlagos, incrível. Sua velocidade nas retas é impressionante. Estamos realmente preocupados. Se você tem um motor como esse, pode realizar outra troca de motor. Ok, vai perder cinco posições no grid, mas sabe que com a potência desse novo motor as cinco posições a mais no grid não representam nada. Em Jeddah há uma reta imensa, como lutar contra eles? Como falei, estamos pensando o que fazer. No nosso motor a degradação é muito pequena e não temos mais problemas com a sua confiabilidade, resistência, mas a potência do motor deles preocupa.

Marko na Fórmula 1 dos anos 1970 – Foto: F1

LO – A F1 em 2022 será bem diferente, carros com efeito solo, pneus de 18 polegadas em vez de 13, em resumo, outro desafio de engenharia. E dos grandes. Estamos vendo novidades nos carros da sua equipe a cada etapa, o desenvolvimento é evidente. Já os demais times se concentram quase que totalmente no projeto de 2022. Esse foco também na temporada atual não pode comprometer o seu mundial do ano que vem?

HM – (Dr. Marko quase não me deixa terminar a pergunta). Não. Estamos trabalhando em paralelo, um grupo se dedica ao atual campeonato e outro ao projeto de 2022. O desenvolvimento do modelo do ano que vem vai muito bem, contratamos profissionais da Mercedes que nos passaram informações deles. Isso nos permitiu entender que estamos um pouco atrasados em relação a eles, mas muito confiantes que estaremos na mesma condição em breve.

LO – Dr. Marko, as horas no túnel de vento são bastante limitadas, agora, e há um inédito limite orçamentário anual (US$ 145 milhões, ou R$ 800 milhões) para tudo, o carro deste ano e o de 2022. De fora, é difícil pensar que as muitas horas de túnel de vento gastas com o carro deste ano, bem como o dinheiro necessário para desenvolvê-lo, não possam impactar o projeto de 2022, com menos horas de túnel à disposição e menos dinheiro para ser trabalhado.

HM – Não, não, está tudo calculado, dentro do planejado. Temos total capacidade de tocar os dois projetos sem comprometer um ao outro.

Marko em foto de 2016 – F1

LO – Qual o impacto da saída da Honda da F1 no ano que vem?

HM – Será principalmente financeiro. Vamos seguir recebendo os motores da Honda, mas teremos de pagar por eles, enquanto hoje é grátis. Não muda nada em relação a hoje. A Honda nos fornecerá o motor e dentro do permitido será trabalhado ao longo do ano. Como disse, será como agora, mas com a diferença de tudo ser pago por nós. Para os anos seguintes, 2023, 2024 e 2025, não sabemos, ainda, como será.

LO – Comente, por favor, sobre a nova empresa criada por vocês, a Red Bull Power Trains, concebida para projetar, construir e desenvolver unidades motrizes próprias para a Red Bull, a fim de não mais depender de ninguém.

HM – Sim (demonstra prazer no tema). Estamos construindo. Em maio ou junho do ano que vem a fábrica vai estar pronta, dotada dos mais avançados recursos tecnológicos, dinamômetros de última geração, 200 profissionais qualificados, contratados também da Mercedes, Ferrari e Renault. Temos certeza absoluta que produziremos unidades motrizes das mais eficientes da F1.

LO – O programa de jovens pilotos comandados pelo senhor já gerou campeões do mundo como Sebastian Vettel e agora outro piloto capaz de vencer o campeonato, Max, dentre outros. Há algum supertalento que vocês estão preparando para em breve chegar na F1 e fazer sucesso?

HM – Sim. Temos, por exemplo, Lian Lawson, neozelandês, 19 anos, um supertalento, hoje na F2. Outro é o americano Jack Crawford, 16 anos, na F3. Nosso programa é um sucesso. Como você disse, produziu Vettel, quatro vezes campeão do mundo, e vários vencedores de corridas na F1, como Daniel Ricciardo, Pierre Gasly, Max. Esqueci alguém?

LO – O senhor tem fama de ser linha dura com eles.

HM – Sim. Nossas regras são claras. Providenciamos tudo o que um jovem piloto precisa para responder com elevada performance, como horas e horas de simulador, reuniões com grupos técnicos, psicólogos de esportes de alta performance, preparadores físicos muito capazes, pagamos tudo. O que lhes pedimos em troca é para mostrar suas competências. Quem corresponde segue conosco, quem não, procuramos entender as razões, e se concluirmos que a responsabilidade maior é do piloto, abrimos a vaga para outro candidato. Simples, assim, e explicado antes para nossos jovens.

James Webb, um passo gigantesco da humanidade

30 dias, um mês. É o espaço de tempo que separa o homem de um dos seus mais importantes projetos científicos, o Telescópio Espacial James Webb

Olá, amigos.

A F1 está no Circuito de Losail, no Catar, estreante no calendário, para provavelmente outra emocionante e histórica disputa entre esses dois pilotos absolutamente geniais, Lewis Hamilton, da Mercedes, e Max Verstappen, Red Bull-Honda. Vamos abordar a partir desta sexta-feira os principais temas dessa que é a 20ª etapa do campeonato, claro, além de disponibilizar uma interessante e longa entrevista que fiz com Dr. Marko, o homem forte da Red Bull, em Interlagos.

Antes disso tudo, porém, gostaria de convidá-los para algo diferente. Tem a ver com a minha paixão pela Astrofísica, Astronomia, a divulgação científica de modo geral. Você deve ter ouvido falar que dentro de um mês, dia 18 de dezembro, a Nasa vai lançar o mais aguardado telescópio de todos os tempos, o Telescópio Espacial James Webb, destinado a reescrevermos a história cósmica, em todas as suas distintas fases.

A tecnologia empregada permitirá observarmos os instantes iniciais do Universo, 13,7 bilhões de anos atrás, estudarmos como as primeiras galáxias, estrelas, os planetas e buracos negros se formaram, sua evolução, descobrirmos exoplanetas potencialmente capazes de abrigar vida como a conhecemos, estudar sua atmosfera, dentre outras perspectivas de enorme interesse da Ciência. Melhor dizendo, da humanidade. É bem provável que essas descobertas nos obriguem a rever muitos conceitos.

Proponho-me a apresentar o Telescópio Espacial James Webb de uma forma um tanto diferente. Creio que ajudará a entender a profundidade desse projeto que era para ser lançado, originalmente, em 2007, ao custo de US$ 500 milhões, ou R$ R$ 2,7 bilhões, e ao longo dos anos acabou sendo completamente revisto, do ponto de vista técnico, abrangência, época de lançamento e, obviamente, custo. Sabe o preço, hoje? US$ 10 bilhões, ou R$ 55 bilhões, a maior parte bancada pela Nasa. São sócios do telescópio a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Canadense (CSA).

Embarque nesta história

Não é pecado recorrermos à ficção. Você é um investigador e participa de uma caçada a um criminoso. Ele estava em liberdade, usava tornozeleira eletrônica e transgrediu as regras. É fim de tarde. Do topo da colina você e os demais policiais veem o fugitivo na porção mais baixa do vale. O grupo está bem equipado para realizar a operação de prender de novo o fora da lei.

A aproximação da noite começa a comprometer a perseguição, pois quase não é mais possível ver o rumo tomado pelo criminoso. O time da tornozeleira eletrônica entra em ação, ao acompanhar seus passos através dos sinais de rádio emitidos pelo dispositivo compulsoriamente atrelado a seu corpo. Eles informam o sistema GPS que dá a precisa localização do procurado.

Você e os colegas não estão em um bom dia. A bateria da tornozeleira simplesmente deixa de funcionar. Não é mais possível ver o transgressor da lei e tampouco rastreá-lo pelo GPS. Para piorar, o último sinal de rádio captado permitiu concluir que ele entrou em uma extensa área de floresta.

Calma, não é o fim da caçada. Seu grupo de trabalho tem mais um recurso: câmeras sensíveis à radiação eletromagnética do infravermelho, em outras palavras, sensíveis à detecção de fontes de calor. Você sabe, os seres humanos emitem essa radiação.

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Não foi preciso muito esforço para o formato do corpo do bandido surgir em toda plenitude na câmera térmica. Só que ele não sabe disso. Acredita, ainda, que a escuridão da noite e a interrupção dos sinais de rádio da tornozeleira eletrônica o manterão em completo anonimato na mata. Antes do dia clarear já estará longe. E não será tão já que a polícia irá cercá-lo novamente.

A história não termina bem assim. Graças à câmera infravermelho você e seus colegas vão orientando pelo rádio a equipe de captura, qual a localização do indivíduo que sequer imagina o que está acontecendo. De repente, quatro policiais aparecem a sua frente e dão voz de prisão. Sem saída, o criminoso se entrega.

Diferentes formas de estudar o Universo

Você talvez não saiba, mas a Astronomia, a Astrofísica se utilizam desses mesmos princípios para estudar o Universo, as radiações da luz visível, as geradas pelas ondas de rádio e as em infravermelho. Na realidade, hoje, também em todas as outras radiações que compõem o espectro eletromagnético: microondas, ultravioleta, raio X e raio gama. Há telescópios concebidos para detectar cada uma delas.

Na maior parte da sua existência a humanidade observou o céu sem recurso algum, usou apenas a visão, com suas severas limitações. Foi só em 1609 que olhamos para a esfera celeste com um telescópio óptico, obra de Galileu Galilei.

Muito tempo depois, na década de 30 do século passado, passamos a analisar o Universo através das ondas de rádio, emitidas, por exemplo, por centros galácticos distantes, quasares, buracos negros. Não enxergamos essa radiação. A captamos com imensas antenas de rádio. Há projetos complexos operando-a, como o Alma, no deserto do Atacama, no Chile, com suas 56 superantenas.

Aprendemos a estudar o Universo produzindo equipamentos sensíveis às várias radiações que os astros, corpos emitem. E toda matéria com temperatura acima do zero absoluto, 273 graus Celsius negativo, emite radiação eletromagnética.

Infravermelho, foco estratégico do projeto

Além da luz visível e da radioastronomia, temos a astronomia do infravermelho. Não a vemos também, mas como no exemplo mencionado câmeras especiais a detectam ou telescópios equipados com elas. Foco nessa radiação por ser a escolhida para ser capturada pelo Telescópio Espacial James Webb, ao menos ser a principal.

A maior parte da radiação infravermelha que atinge a Terra é absorvida pela atmosfera, daí a necessidade de os telescópios em infravermelho encontrarem-se no espaço. Muitas de suas áreas são ocupadas por nuvens de gás e poeira imensas, capazes de serem medidas em anos luz. Elas bloqueiam a passagem da luz visível.

A radiação infravermelha consegue passar por essas nuvens e permite observar estrelas e mesmo galáxias em formação, seus centros, onde em geral há um buraco negro, e a formação de novos sistemas solares.

O Telescópio Espacial James Webb irá observar o Universo principalmente através de câmera infravermelha pelo motivo exposto, a característica de essa radiação atravessar o espaço desde o seu ponto de origem.

Voltar no tempo

Por exemplo: alguns milhões de anos depois da explosão do espaço e do tempo que gerou o Universo, o Big Bang, as primeiras estrelas começaram a surgir e, na sequência, as galáxias. Esse processo começou há 13,7 bilhões de anos. Se conseguirmos captar a radiação que vem dessas estrelas e galáxias distantes 13 bilhões de anos luz, estaremos observando-as como eram na sua origem.

Veja a classificação e o calendário da F1

É como olhar para o passado. Se você observar o Sol com um telescópio, devidamente equipado com filtros, verá o que aconteceu no Sol 8 minutos antes da imagem recebida, pois esse é o tempo que a luz necessita para atravessar os 150 milhões de quilômetros existentes entre o Sol e a Terra.

Os sinais de rádio que a sonda New Horizon enviou do seu sobrevoo de Plutão, em 2015, a 5 bilhões de quilômetros da Terra, demorou 5 horas para chegar até nós, pois a velocidade da luz é de algo como 1 bilhão de quilômetros por hora, 300 mil quilômetros por segundo.

No caso do James Webb, a captação da emissão infravermelha das primeiras estrelas e galáxias nos permitirá ver com elas eram, que evolução seguiram. Nunca é demais lembrar que somos o fruto do desenvolvimento do Universo.

Vale a analogia, estaremos fazendo um ultrassom da época em que o Sol, a Terra e nós mesmos estávamos apenas nos planos longínquos da gravidez do Universo. Estávamos longe de existir, mas nos planos diante do desenvolvimento assumido.

Vida extraterrestre

Como os equipamentos do James Webb são supersensíveis à radiação infravermelha, vamos detectar a emitida por exoplanetas. Eles não emitem luz, apenas refletem a emanada por sua estrela, ou estrelas. O James Webb nos dará imagens relativamente nítidas desses planetas, o que a rigor ainda não temos, apesar de toda tecnologia existente.

A radiação detectada permitirá estudos espectroscópicos precisos, ou seja, entender de que elementos químicos são formados. Assim com suas atmosferas.

Veja que interessante. O James Webb não é pioneiro nessa tecnologia de observar o Universo através da radiação infravermelha. Nem mesmo é nova. De 2003 a 2020 a Nasa manteve em órbita terrestre o Telescópio Spitzer, especializado no tema. Só que, primeiro, estava bem mais próximo da Terra do que ficará o James Webb, e segundo seu diâmetro era de 85 centímetros.

Melhor em tudo

Olha só a diferença: o James Webb permanecerá em uma órbita distante um milhão e meio de quilômetros da Terra, algo como quatro vezes a distância da Lua, estará menos sujeito às interferências das emissões de radiação infravermelha do nosso planeta e mesmo do Sol, o que poderia mascarar os dados obtidos, ainda que terá um sistema especial para manter a temperatura a mais baixa possível, através de nitrogênio líquido e um enorme escudo, protetor solar, na sua base.

Tem ideia da temperatura em que irá operar? Incríveis 233 graus Celsius negativo, as chamadas temperaturas criogênicas. Obviamente a temperatura média do espaço ajuda por ser muito baixa também.

Lembra do que escrevi? A radiação infravermelha é uma radiação térmica. Para a perfeita operação o telescópio precisa estar sob temperaturas como as mencionadas.

É importante destacar algumas das proezas do modesto Telescópio Spitzer, uma espécie de precursor do James Webb. Em 2005, captou a radiação infravermelha de planeta extrassolar pela primeira vez, um feito para a humanidade. Iniciou estudos de suas atmosferas, encontrou vapor d’água em alguns deles.

Em 2010, descobriu um planeta rico em carbono, elemento químico que está na base da vida como a conhecemos. Em 2012, ofereceu dados sobre a expansão do Universo que permitiram redefinir a taxa usada para a medição, a chamada constante de Hubble.

Telescópio Hubble – Foto: Nasa

Mais: em 2017, a Nasa anunciou que o Spitzer fez uma descoberta impressionante, um sistema solar com sete planetas, alguns de dimensões semelhantes às da Terra, sendo três deles na zona habitável da sua estrela, ou seja, com amplitude térmica capaz de manter a água em estado líquido, essencial para o surgimento e manutenção da vida, ao menos pelo que sabemos.

Pense comigo. Se o Spitzer, aqui pertinho da gente, com seus 85 centímetros de diâmetro, realizou descobertas como as descritas, qual o potencial do James Webb com seu espelho primário de seis metros e meio de diâmetro, sete vezes maior, equipado com uma nova geração de equipamentos e posicionado em uma posição do espaço bem mais favorável?

Dá para entender melhor, agora, as razões de tamanha euforia da comunidade científica mundial?

Complementar do Hubble, não sucessor

Puxa, se é assim, o que será então do revolucionário Telescópio Hubble, na ativa desde 1990, depois da entrada em operação do James Webb, prevista para seis meses depois do lançamento? O James Webb não é o sucessor do Hubble, como muitos pensam e mesmo dizem. O Hubble seguirá realizando seu trabalho absolutamente notável sob todos os pontos de vista. Podemos afirmar que o James Webb complementará o extraordinário trabalho do Hubble.

O Hubble observa o Universo principalmente no espectro da luz visível e um pouco através da radiação ultravioleta e até infravermelha. Seu alcance, com um espelho de 2 metros de diâmetro, é bem menor. Mesmo assim, sua contribuição científica continua sendo única na história da Astronomia e Astrofísica. A história dessas ciências se divide em antes e depois do Hubble.

A expectativa é de que o James Webb reescreva a história não apenas da Astronomia e Astrofísica, mas também da Biologia, Química, Geologia, dentre outras, dada a abrangência dos estudos possibilitados.

Desde o dia 12 de outubro o Telescópio James Webb está no Centro Aeroespacial de Kourou, na Guiana Francesa, base de lançamentos da Agência Espacial Europeia, por ser próxima da linha do Equador. É menos difícil para o foguete decolar. Com seus 20 metros de extensão, 14 de largura, 6,5 toneladas de peso, o telescópio está sendo acomodado no foguete Ariane 5 dobrado como um origami, arte japonesa de dobrar papéis.

É de lá que partirá e vai enfrentar sérios desafios até entrar em operação, em junho de 2022, tudo dando certo. Lembro que onde irá operar, como disse 1,5 milhão de quilômetros da Terra, não há possibilidade viável de consertos, como aconteceu com o Hubble, em 1990. A Nasa e seus sócios têm de acertar de cara. A humanidade torce por isso.

Apesar da extensão do texto, não falei do avanço dos instrumentos embarcados no James Webb, o que são capazes de detectar e nos transmitir e em que grau de nitidez. Não mencionei os inúmeros projetos de pesquisa já aprovados pela Nasa, Esa e SCA com o uso do telescópio. Fica o convite para uma nova conversa sobre o tema. Pode ser?

Nosso próximo encontro, agora, é para abordarmos esta edição épica do mundial de F1, com o GP do Catar. Se pensarmos bem, a ultratecnologia aeroespacial e a ultratecnologia empregada na F1 são mundos com grandes afinidades, não acha?

Abraços, amigos.